Guia Horta do bordeaux que cabe no seu bolso

Guia Horta do bordeaux que cabe no seu bolso

Eles não têm a fama dos caríssimos vinhos da famosa região francesa, mas também são ótimos e têm a vantagem de custar até R$ 99. O colunista Luiz Horta selecionou dez surpreendentes bordeaux encontrados em São Paulo

Luiz Horta - O Estado de S.Paulo,

11 Janeiro 2012 | 17h07

Latour, Lafite, Mouton... Cada menção a um desses nomes faz tilintar, imaginariamente, uma caixa registradora, plim, centenas de euros. Haut-Brion, plim, mais centenas. Pétrus, milhares... E, mesmo assim, os grandes châteaux de Bordeaux vendem tudo que produzem.

Antes eram os ingleses, praticamente inventores do que chamam claret, vinhos de Bordeaux evoluídos num estágio de mais de 20 anos na garrafa. Um inglês que não entendesse de vinhos nem seria digno do passaporte britânico. Até as grandes e tradicionais faculdades seculares do eixo “oxbridge” (Oxford e Cambridge) dispõem de adegas bem providas para consumo de mestres e alunos graduados. Depois vieram os americanos, capitaneados pelo crítico Robert Parker e seu sistema de pontuação até 100, ainda vigente. Mas britânicos e americanos vêm declinando no consumo de vinho.

 

Ilustração: Daniel Kondo

Hoje o dinheiro está mais nas mãos de russos e chineses - os últimos compraram todo o líquido de rótulos famosos. Esgotados esses, começaram a comprar os próprios châteaux, até que uma lei francesa impediu. Mesmo assim, os chineses chegaram e ficaram. Já produzem vinho com investimentos e expertise bordelesa. Lafite, por exemplo, tem joint venture na China e em breve teremos alguns Châteaux “A.O.C.” (Appellation d’Origine Chinoise)... 

Mas e os nomes menos conhecidos, as centenas de propriedades espalhadas pelas margens do Garonne, Gironde e Dordogne? Crise. Se o seu château não tem um nome que ressoe nos ouvidos do dinheiro novo, seu vinho encalha. Precisa do mercado local, da Europa, que bebe menos, gasta menos, e da França, que cada vez prefere outras regiões menos caras.

Eis a vantagem para nós. Podemos beber bordeaux, bons vinhos da região, se arriscarmos nomes desconhecidos. O Paladar rodou pelas importadoras, descobriu ótimas garrafas abaixo de R$ 100. Talvez não tenham a longevidade mítica dos vinhos da safra de 45 nem a complexidade de aromas e sabores de um Lafite 82 ou de um Estournel 2000. Mas é possível ter um bordeaux à mesa pelo preço de um chileno ou de um argentino.

Eu sou apenas um colunista de vinhos. Meu assunto são os taninos e as diferenças de solo nos vinhedos. Não sei de finanças nem de geopolítica. Nem devo me meter nesses assuntos arcanos. Arrisco olhar para minha taça Riedel de cristal e fazer uma previsão: não haverá novo Robert Parker. Não há condições de repetir a conjuntura que o gerou - um país com muito dinheiro e ávido por consumir vinhos caros e de nomes famosos e sonoros, mas precisando de quem o guiasse. Pensando bem, há, sim, essa possibilidade: cherchez l’argent, e lá estará o berço do Parker do futuro. Minha taça... (ooops!) bola de cristal me diz que o novo Robert Parker será chinês. Enquanto isso, bebamos o bordeaux que a China não compra.

Para escolher os dez vinhos abaixo, provei três dezenas, apenas tintos. Foram escolhidos pelo preço e degustados às cegas. Valorizei os que tinham melhor tipicidade, ou seja, que apontavam sua origem bordelesa. Houve alguns com muito álcool, outros madeira que parecia estar bebendo restos de poeira de mesa de carpintaria e alguns de fruta demasiado madura e doce, lembrando os piores do Novo Mundo; todos descartados de imediato. Aqueles com boa acidez, equilíbrio, corpo elegante, longos no gosto e com jeitão de durar mais alguns anos, escolhi.

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.