Guilherme Gontijo Flores mostra que a poesia brasileira vai bem

Guilherme Gontijo Flores mostra que a poesia brasileira vai bem

Autor publicou cinco obras líricas em seis anos, sendo a mais recente 'carvão : : capim'

Érico Nogueira*, Especial para o Estado

30 Junho 2018 | 16h00

Desde a Ilíada de Homero – o primeiro poema do Ocidente –, o tempo de ontem já era melhor do que o de hoje, e a humanidade, coitada, está sempre em decadência. Seguindo, pois, firme nesse jovem saudosismo de 29 séculos, a crítica especializada (me refiro aos renomados professores das mais renomadas universidades) se recusa a ver o óbvio – isto é, que a poesia brasileira vai muito bem, obrigado, e não morreu aos 4 de dezembro de 2016, junto com Ferreira Gullar. Explico-me com um exemplo. 

+Antologia reúne obra poética de Marcelo Tápia em ordem invertida

+Romance de André Caramuru Aubert é uma introdução à poesia chinesa

O lançamento brasileiro de carvão :: capim, em 2018, depois de publicar-se o ano passado em Portugal, é, pois, a mais nova ocasião para o leitor entrar em contato com a obra mutante, dinâmica e desafiadora daquele que é hoje, sem dúvida nenhuma, um dos mais prolíficos (e jovens) artistas do País. A um só tempo poeta, tradutor, pensador, performer, editor e professor universitário, o brasiliense Guilherme Gontijo Flores vem construindo uma carreira brilhante e literalmente extraordinária, colecionando prêmios e a merecida admiração dos leitores mais exigentes. E isso tudo não à toa: com efeito, no curto espaço de seis anos, entre livros de poesia, traduções, ensaios e coletâneas organizadas, Guilherme publicou nada menos do que 11 títulos, entre os quais as nada singelas Elegias de Sexto Propércio e todos os quatro volumes de A Anatomia da Melancolia, clássico do inglês Robert Burton. É quantidade com qualidade.

No que toca, então, à poesia original, carvão :: capim é o seu quinto livro, na sequência direta de Brasa Enganosa (2013), Tróiades (2014), l’Azur Blasé (2016) e Naharia (2017). Constante de 35 poemas divididos em cinco secções – Petrografia Esparsa (7), História dos Animais (11), Sator / Rotas (2), Quatro Cantatas Fúnebres (4) e Lo Ferm Voler (11) –, sua matéria é fácil de definir: morte (carvão) e vida (capim); ou, mais exatamente, como em Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto – um dos poetas preferidos da crítica universitária –, um possível percurso da morte para a vida, invertendo a banalíssima ordem natural. São poemas de elocução e extensão variadas, este mais longo e reflexivo, aquele mais curto e imagético, em que um poeta culto, senhor do seu ofício e conhecedor da tradição, busca tomar parte ativa no debate contemporâneo, tirando, assim, a poesia do gabinete (e o leitor da zona de conforto), e testando a sua força e validade no confronto com temas atuais. Um livro político de um poeta político, portanto. Mas nenhum deles – poeta e livro – panfletário.

Leiamos, pois, a título de exemplo, Nomes de Pedra, poema constante da primeira parte do livro: “1. Encravada na terra / essa flor de rosácea/ junto à estrada / ferida arrancada / da pele da mata/ escavada no olho /cansado pedreira/talvez deserta /2. A fratura inexposta/e controlada/o punho dolorido
/e do lado de dentro /(essa invenção quase indeterminável) /nada acabado /ainda a alma
— particípio — /engessada /3. Atento — andamos / sobre o teto dos mortos /pela flor do ipê”.

Pois então: dialogando com o inolvidável Áporo de Drummond (outro predileto da academia) e com as emblemáticas pedras do citado Cabral, este poema renova e atualiza a dialética entre vida e morte, natureza e cultura, corpo e alma, em três momentos ou nomes de certa pedra – para dizer o mínimo – inquietante. De facto, se no primeiro há clara oposição entre uma “flor (...) arrancada (...) da mata” e uma “pedreira talvez deserta” (observe o leitor que o vocábulo mata é sutil e engenhosa tomada de posição ecológica do eu-lírico do poema), no segundo a imagem da “alma (...) engessada” parece negar essa oposição, a qual no terceiro, por fim, é superada e tornada em cósmica harmonia de contrários, já que o teto é o chão que se pisa, e, chão dos mortos embora, é teto de vivíssima flor de ipê...

Ora, integrando uma vertente “crítica” da poesia moderna – aquela que põe presente, passado e futuro severamente em questão –, Guilherme não joga fora a água do banho junto com o bebê (como fazem os mais desavisados e menos talentosos integrantes dessa vertente), uma vez que a política, em suas mãos, não é inimiga da poesia, e seus poemas fincados no momento histórico não deixam de voar. 

Finalmente, eu gostaria muito de comentar o primeiro e o último poema da coletânea, ambos mais ou menos longos e ambiciosos e reflexivos, mas, faltando-me espaço, farei então como os críticos de antigamente e serei direto: são dos melhores que tenho lido nos últimos tempos. Não perca tempo, leitor. Leia este livro o quanto antes. E quando te perguntarem como vai a poesia, não se esqueça: Vai bem, obrigado.

*É poeta, ficcionista, professor da Unifesp e autor do livro 'Contra um Bicho de Terra Tão Pequeno' (editora É Realizações, 2018) 

Mais conteúdo sobre:
poesia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.