Guru de famosos na ioga é investigado pela polícia de São Paulo

Cristóvão de Oliveira vai a delegacia esclarecer internação de 18 pessoas que praticam a ioga

Valéria França, de O Estado de S. Paulo,

20 Novembro 2008 | 09h03

O famoso guru pop dos descolados, Cristóvão de Oliveira, de 43 anos, teve de ir na quarta-feira, 19, à Delegacia de Mairiporã, na Grande São Paulo, prestar esclarecimentos sobre uma prática, por ele orientada, que teria provocado a hospitalização de 18 pessoas, no início deste mês. Dono do Centro Vidya, com três unidades na cidade, Cristóvão ganhou fama por atrair alunos de peso, caso do empresário Pedro Paulo Diniz e das atrizes Fernanda Torres e Fernanda Lima, que chegou a gravar um DVD em parceria com o mestre.   A confusão começou na madrugada do dia 1º deste mês, quando um funcionário do Hospital e Maternidade Emed, em Caieiras, na Grande São Paulo, entrou em contato com a Delegacia de Mairiporã. O motivo: 15 pessoas deram entrada no hospital com diarréia, cólicas, desidratação e confusão mental, entre outros sintomas. Algumas horas depois, chegaram mais três vítimas. Todas eram egressas do ashram do Centro Vidya, na Serra da Cantareira, quase limite com o município de Mairiporã.   Na Índia antiga, os ashrams eram abrigos para eremitas; aqui, são locais afastados do centro para a prática de ioga. "Um dos médicos falou que os pacientes teriam ingerido cerca de 40 litros de água misturada com chá de sene", diz o delegado Diego Castanheira Resende, da Delegacia de Mairiporã. "Na hora, achei que era mais um caso de Santo Daime. Depois que uma aluna apresentou-se aqui, pensei que pertencessem a uma seita. Ela disse ser advogada e defendia seu mestre com um fanatismo impressionante."   O delegado abriu um inquérito de tráfico de drogas. O chá de sene, com poder laxativo e vendido em casas de produtos naturais, foi mais tarde recolhido e enviado para análise no Instituto Adolfo Lutz. O resultado ainda não ficou pronto.   Na quarta, durante depoimento, Cristóvão não falou sobre o retiro, divulgado em outubro em flyer e no site da escola, com duração prevista de um mês. Disse apenas que uns amigos resolveram passar o fim de semana em sua casa, na Serra da Cantareira - ele mora no ashram com a família. Explicou que, naquele dia, ingeriram uma quantidade de água - mas não se recordava quanto -, misturada com uma colher de chá de sene, e intercalaram com massagens abdominais, para auxiliar a limpeza gastrointestinal. Depois de 15 ou 20 minutos, segundo seu depoimento, as pessoas começaram a passar mal.   Risco de vida   "Eles não tomaram veneno ou droga", aposta Arnaldo Lichtenstein, clínico-geral do Hospital das Clínicas. "Se a informação dos 40 litros for verdadeira, eles beberam água em excesso, o que não é menos grave, pois pode causar lesões cerebrais irreversíveis, levando até à morte."   O médico explica que é um problema químico. O recomendável é tomar 2 litros de água por dia. Em quantidade muito acima do normal, o líquido dilui o sódio que existe no corpo. "A baixa concentração de sódio provoca convulsões e mesmo desidratação. O paciente vai para a UTI, porque a correção desse desequilíbrio é muito delicada, não é feita de uma vez só", diz Lichtenstein.   Instrutor de ioga, Minoro Wagner, de 23 anos, que também foi internado no Emed, explica que a idéia era fazer um cria, nome dado pelos hindus às limpezas do corpo. "Não foi nada de mais. Você toma água e ao mesmo tempo ajuda sua eliminação, induzindo o vômito e tomando chá de sene, que provoca diarréia." Wagner não disse quanto bebeu. "Meu emprego está em jogo e o relacionamento com minha família também."   A mãe de Wagner, Marta, soube que o filho fora hospitalizado três dias depois, por intermédio da irmã, praticante de ioga de uma escola liderada por Mário Reinert, um instrutor dissidente do Centro Vidya. "A escola deveria ter avisado."   Um dos iogues, Badu Nogueira, de 27 anos, chegou a ter convulsões. Atendido no Hospital Municipal de Mairiporã, os médicos precisaram entubá-lo para que conseguisse respirar. Depois, foi encaminhado ao Hospital de Franco da Rocha para tomografia e então transferido para a UTI do Emed. Segundo relatório da médica Isabela Lopes, que o atendeu no Emed, Nogueira chegou confuso, agressivo e com síncopes.   Lá, ainda teve de ser atendido por um buco-maxilo-facial. "Sua mandíbula estava fora do lugar", diz um dos familiares do rapaz, que prefere não se identificar. Cinco dias depois, Nogueira teve alta e voltou ao retiro. "Ele está morando com a gente", explica Adriana Patias, mulher de Cristóvão. "Aqui é minha casa. E nós o adotamos", diz ela. "Todos que fizeram a prática estão bem e voltaram para cá." Cristóvão foi procurado pelo Estado, mas não atendeu a reportagem.   Indignados, os pais resolveram recorrer à Justiça. "Vamos pedir abertura de inquérito por curandeirismo e prática ilegal da medicina", diz Ismar Marcílio de Freitas Júnior, advogado representante dos familiares, que passou a última semana recolhendo nomes e RGs de pessoas que poderiam testemunhar sobre outras irregularidades. As denúncias devem ser incluídas no inquérito que já corre em Mairiporã.   Conseqüência   "O incidente só prova que essas clínicas de ioga precisam ser melhor fiscalizadas pelos órgãos da saúde", diz o criminalista Tales Castelo Branco. "Cristóvão é responsável pelos alunos." Deveria, segundo o advogado, ter feito a limpeza na presença de um médico ou enfermeiro formado.   "Trata-se de um crime de culpa consciente, onde o réu teria o dever de prever o resultado de sua ação." A pena vai de 3 meses a 1 ano de prisão. Como ele é réu primário, deve, se condenado, pagar com penas alternativas.

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