Há muito pessimismo com o comércio mundial

A economia mundial vai crescer mais neste ano e no próximo, mas o consumo e o comércio, não. É o que preveem a OCDE, que congrega as 30 principais economias mundiais, e a OMC, em estudos separados divulgados nesta semana. A OCDE está menos pessimista que a OMC.

Alberto Tamer, O Estadao de S.Paulo

22 de novembro de 2009 | 00h00

Os Estados Unidos estão reagindo bem, devem passar de uma retração de 2,5% neste ano para uma expansão de 2,5% em 2010. Soma zero, mas, pelo menos, não piora. A Eurozona só cresce 0,9% em 2010. Os países emergentes, principalmente asiáticos e Brasil, sustentam a saída da recessão, afirma a OCDE. Só não se sabe, ainda, se poderão sustentar a retomada do crescimento.

Num estudo divulgado há 15 dias, reportado pelo correspondente do Estado em Genebra, Jamil Chade, a OMC mostra que o elo frágil continua sendo o comércio mundial. Sem ele, não se pode esperar muito. Vai permanecer frágil em 2010 porque o consumo nos países desenvolvidos, que sofreu forte retração com a crise, não se recuperou ainda e dá sinais de reagir apenas lentamente em 2010.

PERDA DE US$ 1 TRILHÃO

Uma parte da perda provocada pela queda da demanda será permanente e é estimada por técnicos da OMC em US$ 1 trilhão por ano. Em alguns países, como os Estados Unidos, os gastos com consumo caíram 1,9% neste ano. A média na OCDE é de 1,5%

Isso se reflete na forte retração, de 11%, no comércio mundial neste ano. Muito do que foi não volta, prevê a OMC. E o que eventualmente voltar virá lentamente.

Há problemas com o crédito, afirmou o secretário do Tesouro americano, que está ainda concentrado, não beneficia as empresas médias e o consumidor em geral; há o dilema de retirar os incentivos fiscais sem provocar uma nova recessão. Mas há, acima de tudo, o fantasma do desemprego, que deve ainda aumentar em 2010, antes de começar a cair. Também aqui grande parte dos postos de trabalho suprimidos não voltarão.

SAÍDA? POUCAS

E difíceis. Na verdade, só uma no curto e médio prazos. Fazer com que os países, por esforço próprio, cresçam isoladamente para aumentar primeiro a demanda, depois as importações e o mercado mundial.

Mas isso está diretamente ligado ao desafio de manter os onerosos incentivos fiscais ou retirá-los cuidadosamente para não provocar uma nova recessão. Uma ameaça sobre a qual se fala cada vez mais. E aqui entra o fator câmbio, levando um país a tentar crescer em detrimento das importações de outros. É tudo ainda não resolvido. Nem há sinais de solução.

O Brasil está fazendo a sua parte. A OMC informa que entre o ponto mais baixo da recessão, março e outubro, as importações brasileiras aumentaram nada menos que 60%. Mais que EUA, França, Alemanha, Japão, e só abaixo da China,70%, e da Índia, 69%. Não foi só a valorização do real, mas o crescimento econômico já da ordem de 7%, impulsionado pelo consumo interno. Tanto OCDE quanto OMC, que não poupam elogios, estima um PIB de 5% no próximo ano.

MUITO AQUI, MAS É POUCO

Se isso é muito para o Brasil, é pouco no contexto internacional. Quase nada. O Brasil representa pouco mais de 1% do comércio e do PIB mundiais. Para que o mundo volte a crescer, é preciso que os dois grandes, EUA e União Europeia, que representam mais de 50% do PIB mundial, voltem a consumir e também a crescer.

Mas não é isso o que a OCDE está dizendo em seu relatório sobre a economia divulgado nesta quinta-feira? Pode parecer, mas não é. Vejam: ela prevê que o PIB dos EUA deverá crescer 2,5% em 2010, mas, como caiu 2,5%, o saldo é zero. Não haverá crescimento em dois anos.

No Japão, segunda economia mundial, a situação é ainda pior. PIB de menos 5,3% neste ano e crescimento de apenas 1,8% em 2010. A Alemanha vai atrás, com indicadores semelhantes e negativos: PIB de menos 4,9% agora e crescimento de 1,4% em 2010.

PIOROU? SIM

O diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, não fala, mas admite. No segundo semestre, a queda do comércio mundial está sendo menos intensa do que no primeiro, mas persiste. O fim da recessão em algumas economias não foi suficiente para reverter a situação. No início da crise, Lamy falava em queda de 7% no comércio mundial este ano. Alguns meses depois, já admitia 9%; em meados do ano, achava que seria 10% e agora a OMC já vê uma retração de 11%.

Como ele chegou a essa conclusão? Há vários indicadores da OMC. Vamos apresentar o mais significativo. No auge da crise, em 2008, a União Europeia estava importando o equivalente a US$ 229 bilhões; em março deste ano, as importações europeias caíram para US$ 124 bilhões. E agora? Uma ligeira recuperação, para US$ 130 bilhões. É sinal de uma economia que parou de recuar, mas permanece estagnada. Vai continuar mantendo um crescimento que podemos considerar altamente negativo.

De fato, a OCDE prevê para a Eurozona um PIB de mais 0,9% em 2010. Mesmo que seja, digamos, 1,5%, é ainda irrisório simplesmente por que neste ano ele está deve estar afundando 3,5%! É só fazer a contas para calcular a riqueza que a recessão destruiu.

BRASIL PODE ESPERAR

O Brasil, como a China e a Índia, pelo estímulo ao consumo interno para enfrentar a recessão, acertou. Mas um crescimento de apenas 1,9% no PIB mundial e retração de 11% no comércio internacional certamente vão aumentar ainda mais a pressão sobre esse mercado interno. Ele tem limites para se expandir sem gerar desequilíbrios e tensões. Mas temos alguns semestres para esperar até que os países desenvolvidos, que provocaram tudo isso, ponham alguma ordem na economia mundial. Não podemos sonhar, mas não há razão para perder o sono.

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