Haddad acusa professores do Ceará de copiar e distribuir questões do Enem

Ministro dá a 1ª entrevista após a anulação de exame de 639 alunos do Colégio Christus, que antecipou perguntas em 'simulado'

Entrevista com

SERGIO POMPEU, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2011 | 03h03

O ministro da Educação, Fernando Haddad, disse ontem em entrevista exclusiva ao Estado ter "fortes indícios" - por meio de denúncias de alunos - de que professores do Colégio Christus, de Fortaleza, copiaram e distribuíram a estudantes dez dias antes do Enem questões usadas na prova. Ele afirmou que sua decisão de anular provas de 639 alunos da escola visa a garantir a "isonomia" do Enem, mas rejeitou a hipótese de cancelar as questões antecipadas pelo colégio para candidatos de todo o País, como pediu o Ministério Público Federal no Ceará.

O próprio Colégio Christus defendeu a anulação das questões do suposto "simulado", alegando que o responsável pelo sigilo do Enem é o governo, mas que os alunos que foram punidos. Há hipótese de anular essas questões?

Vamos sustentar outra tese. A de que há indícios muito fortes de uma ação delituosa, que favoreceu um grupo de estudantes que não concorreu para o evento. Ninguém aqui considera que os estudantes tenham tomado parte nessa ação. Receberam o material, sem saber do que se tratava. Não se trata de punição. O que se busca é resgatar a isonomia das condições de acesso ao ensino superior.

Quais são esses indícios?

Hoje sabemos que essa escola foi sorteada em outubro de 2010 para o pré-teste (realizado com grupos pequenos de estudantes, ao qual são submetidas todas as questões do Enem para determinar seu grau de dificuldade). E o material divulgado pela escola é a reprodução fiel de 2 dos 36 cadernos de pré-testes aplicados lá. Aquilo que a própria escola reconhece que divulgou para os alunos não são itens quaisquer - são dois cadernos de pré-teste. Não são itens memorizados aleatoriamente nem colhidos do mundo virtual.

Vem daí sua convicção? Ou já se avançou mais na investigação de quem pode ter conseguido ou distribuído as questões?

Temos depoimentos de estudantes dizendo que receberam (o "simulado") da mão de professores da escola, que até mesmo recomendaram sigilo em relação ao material, em virtude do seu potencial de auxílio no exame. Os alunos receberam com essa recomendação expressa. Estão chegando até nós, pelo 0800, com nome, CPF, depoimentos de estudantes do colégio. Aquela versão que se tentou passar, de que são itens quaisquer, que poderiam cair na prova... não é isso. Eram dois cadernos específicos.

Estudantes dizem que não é possível determinar quantos candidatos viram o "simulado", até porque o Christus tem cursinho pré-vestibular...

Tenho de fazer análise concreta, caso a caso. Mas que no colégio esse material circulou, disso não resta dúvida.

Nas redes sociais estão sendo convocados protestos para este fim de semana - no Rio, 4 mil internautas já confirmaram presença. Uma das exigências é o cancelamento de questões. Isso pode fazer o sr. mudar de ideia?

Essas manifestações são livres e as respeitamos. Mas a solução que o MEC achou foi essa: quando há favorecimento ou desfavorecimento, reaplica-se a prova. Um princípio que todo cidadão é capaz de entender.

Para olhar o copo meio cheio, pelo menos o número de estudantes prejudicados tem caído ano a ano no Enem....

É uma maneira de ver a questão. O Enem precisa é ter um antídoto contra uma ação dessa natureza. Este é o terceiro episódio. Dois estão comprovados. No de 2009 (de vazamento da prova) já existe pena para o criminoso. No da fiscal de 2010, que passou o texto-base da redação para o filho, o processo criminal corre. E com o de agora seguirá essa linha, de apurar até as últimas consequências e punir os responsáveis.

A pena pode chegar à prisão?

Se for confirmado o caráter delituoso da ação, como os indícios sugerem, sim.

Quando o sr. fala de antídotos contra episódios como o de Fortaleza, está dizendo que não há como evitar problemas na prova?

Vocês estão mirando errado: nós vamos ter de transformar este país num grande presídio para poder aplicar o exame da forma como vocês insinuam ser possível. Você tem de trabalhar para ter controles cada vez mais rígidos e, na outra ponta, mecanismos de correção quando ações delituosas são cometidas contra o exame.

Mas há uma cobrança da sociedade, até por causa do que está em jogo no exame, não?

Não estamos reclamando da cobrança. Mas o Enem é uma prova em que são utilizadas 500 mil pessoas, fora os inscritos. Se um indivíduo decidir de caso pensado prejudicar o exame, no mínimo ele vai conseguir perturbar a ordem. Acho que as pessoas têm um grau de consciência grande do que o exame representa para o País. E justamente por isso repudiam ações como essa (investigada no Ceará).

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.