Herpetólogos defendem técnica polêmica

Uma carta publicada por biólogos brasileiros na edição da semana passada da revista Nature traz à tona uma velha polêmica da herpetologia (estudo de répteis e anfíbios), quanto ao uso de uma técnica chamada "ablação de artelhos", em que pontas dos dedos dos animais são cortadas para identificação no campo.

HERTON ESCOBAR, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2013 | 02h04

A declaração, em defesa da técnica, é uma resposta a questionamentos levantados pelo Ibama e pelo Ministério Público Federal no sentido de proibi-la.

O texto é assinado por Décio Corrêa, aluno de mestrado em Ecologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em nome dele e de outros quatro biólogos - entre eles, o presidente da Sociedade Brasileira de Herpetologia (SBH), Marcio Martins, da Universidade de São Paulo (USP).

Martins contou ao Estado que recebeu em outubro uma carta do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), repassando "um pleito do Ibama para a retirada do método de marcação de ablação de artelhos de anfíbios e répteis", com base na interpretação de que seria "uma prática de mutilação e que haveria outros meios alternativos, o que tornaria tal ação passível de ser caracterizada como crime e infração administrativa".

A resposta veio na forma de um artigo na edição de novembro da revista Herpetologia Brasileira, em que a SBH "recomenda enfaticamente a manutenção da técnica". A carta enviada à Nature é um esforço para dar ainda mais visibilidade ao assunto, fazendo a mesma defesa, só que de forma mais sucinta.

A SBH ressalta que a técnica é padrão da herpetologia, utilizada há décadas no mundo todo, e que não há comprovação científica de que cause prejuízos aos animais ou às suas populações. Pelo contrário, o método é considerado indispensável para a realização de levantamentos populacionais, essenciais para a conservação das espécies estudadas.

Na prática, cortar a ponta de um dedo é a maneira que os herpetólogos têm de marcar um animal no campo para saber se já o capturaram antes. Equivalente ao que se faz com anilhas em aves ou tartarugas-marinhas, por exemplo - inviável para pequenos lagartos e sapos. "Especialmente nos casos em que é preciso marcar um grande número de animais, não há alternativa eficaz", justifica Martins.

O ICMBio parece convencido. "Já fechamos um entendimento técnico sobre a manutenção de ablação de artelhos como possível técnica de marcação para estudo científicos, contudo ainda aguardamos o retorno da análise jurídica para fechar o posicionamento institucional", disse a coordenadora de Pesquisa e Monitoramento da Biodiversidade, Marília Marini.

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