Guga Matos/Jc Imagem
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Hipertensão atinge 23% dos brasileiros; os de baixa escolaridade são maioria

Pesquisa telefônica nas 26 capitais e no Distrito Federal confirma que doença deixou de ser privilégio dos mais ricos e reforça necessidade de campanha preventiva, estimulando a adoção de dieta mais equilibrada e incentivo à prática de exercícios físicos

Lígia Formenti / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2011 | 00h00

Pesquisa feita pelo Ministério da Saúde mostra que 23% da população tem hipertensão, uma doença crônica que se não for tratada pode levar ao derrame, insuficiência renal ou problemas cardiovasculares. O trabalho mostra que os índices da doença estão estáveis no País, quando comparado com 2006, mas nitidamente com ocorrência maior entre as pessoas com menos escolaridade.

O fosso fica evidente no grupo feminino: o índice da doença entre as menos escolarizadas é 2,5 vezes maior do que entre as mulheres que passaram mais tempo na escola. Entre aquelas com até oito anos de estudo, 34,8% dizem ter pressão alta. Entre as com 12 anos ou mais de escolaridade, 13,5% revelam ter a doença.

No grupo masculino, o fenômeno se repete. Entre aqueles que apresentam até oito anos de estudo, 30% dizem ser hipertensos. Já entre os que estudaram 12 anos ou mais, o percentual é de 16,2%. A pesquisa, feita com base em entrevistas feitas por telefone com 54.339 adultos nas 26 capitais e no Distrito Federal, está em sua quarta edição. Em 2006, primeiro ano avaliado, a diferença entre grupos também existia, mas em menor proporção.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, atribui a diferença entre os grupos ao acesso à informação. "Engana-se quem acredita que hipertensão é doença de rico", afirmou. Diante dos números, ele diz ser necessário reforçar as medidas preventivas, como ênfase na necessidade de as pessoas adotarem uma dieta mais equilibrada e o incentivo à prática de exercícios físicos.

Um das estratégias do ministério é auxiliar municípios na criação de infraestruturas para atividade física. A expectativa, de acordo com Padilha, é de que até o fim do ano 100 unidades deste tipo sejam criadas.

Fator idade. A pesquisa mostra que o menor índice de hipertensão está em Palmas, onde 13,8% da população se diz hipertensa. O maior percentual foi registrado no Rio, onde 29,2% se declararam com a doença. Belo Horizonte apresentou porcentual de 25,1% e Recife, de 23,6%. Em São Paulo, 22,9% dos ouvidos disseram ser hipertensos. Para o ministério, a diferença entre os Estados está ligada principalmente à idade da população. Onde há mais pessoas com idade acima de 60 anos, maior o indicador. "No Rio, há maior concentração de pessoas com idade mais elevada, sobretudo entre o grupo feminino", completou o ministro.

Os números gerais também mostram essa diferença. A doença atinge 8% da população com idade entre 18 e 24 anos ouvida na pesquisa. Entre aqueles com 55 anos ou mais, 50% apresentam o problema. As diferenças são notadas ainda entre grupo masculino e feminino. O índice de hipertensão é maior entre mulheres (34,8%) do que em homens (20,7%). Em São Paulo a tendência se manteve: 19,7% dos homens e 25,8% das mulheres disseram ter hipertensão.

Para Otaliba Libânio, diretor do Departamento de Análise de Situação de Saúde do ministério, a diferença nos porcentuais não é provocada pelo maior risco de mulheres desenvolverem a doença, mas pelo melhor diagnóstico. "Mulheres vão mais ao médico", disse.

Estresse. De acordo com o cardiologista José Luiz Cassiolatto, do Hospital 9 de Julho, o aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho está levando-as a apresentar os mesmos graus de estresse que os homens, adotando padrões de alimentação parecido com o deles. "Além disso, elas têm alguns fatores agravantes, como o uso de anticoncepcional que, associado ao estresse e ao tabagismo, por exemplo, fazem com que as mulheres sejam vítimas mais fáceis para a hipertensão", diz.

A terapeuta ocupacional Andrea Lopes Lima, de 43 anos, constatou que sua pressão estava alta - em torno dos 14 por 10 - há um ano. "Quase não tive sintomas, mas no dia em que descobri não estava me sentindo muito bem. Estava um pouco enjoada e tinha comido coisas com muito sal alguns dias antes", conta. Por causa desse episódio, foi ao clínico geral e agora está fazendo uma série de exames para investigar uma possível hipertensão.

Retrato

50%

da população na faixa etária dos 55 anos diz ter a doença

29,2%

da população do Rio afirma ter hipertensão, o maior porcentual encontrado no País

40%

dos derrames poderiam ser evitados se níveis de pressão arterial fossem controlados

PARA ENTENDER

Hipertensão

É o aumento na contração das paredes das artérias, o que acaba levando a uma maior pressão durante a passagem do sangue. São consideradas hipertensas pessoas com pressão arterial igual ou superior a 14 por 9.

Sintomas

A doença é conhecida como mal silencioso, pois não há sintomas. As pessoas muitas vezes acabam descobrindo o problema apenas quando fazem a medição da pressão.

Fatores de risco para a doença

Fumo, sedentarismo, abuso de bebida alcoólica, obesidade, consumo de sal em excesso, pessoas que têm hipertensos na família, diabéticos.

Riscos da hipertensão

Derrame, paralisação dos rins, doenças cardíacas, lesões nas artérias, problemas na visão.

Cuidados

Medir rotineiramente a pressão. A prática deve ser iniciada já na infância. Reduzir a ingestão de sal, praticar exercícios físicos com frequência e manter o peso controlado.

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