Hits e lama na noite de The Killers

Banda levou 12 mil pessoas à Chácara do Jockey, que virou uma ''pocilga''

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

23 de novembro de 2009 | 00h00

Debaixo daquela chuva chata que caiu em doses cavalares, com os pés no lamaçal que transformou a Chácara do Jockey numa "pocilga", depois de uma penca de canções repetitivas no show da banda americana The Killers, três caras que jamais estariam ali me vieram à lembrança: Mauro Teixeira, Luiz Tatit e Jean Garfunkel. Certa vez, no final dos anos 80, Teixeira, jornalista e fã de rock na época, conjeturou: "Será que daqui a 20 anos a gente ainda vai estar ouvindo Waterboys?". A resposta está no vento. Poucos ainda se lembram que a (boa) banda existiu, não sobrou sequer um grande hit pra tocar na Antena 1.

Tatit escreveu há uns dois anos no Estado um artigo muito interessante, em que falava da "música que fica" na memória, que passa às gerações adiante, algo assim, enfim, que faz história. E Garfunkel, nas reuniões entre jurados de um festival da TV Cultura, em 2005, ironizava o clichê que diz que "música é "momeinto"", assim, com sotaque de paulistano afetado.

Toda essa introdução é para ilustrar a sensação de incerteza e vazio provocada pelo show dos Killers, anteontem, para quem não morre de amores por eles. Ao que parece - e a linha descendente de seus CDs é a melhor evidência -, esta não só é uma banda que não vai ficar, como já não ficou. De álbum em álbum, o grupo - que só tem cinco títulos - vai descendo até no conceito dos fãs, fazendo igual ou pior do que eles próprios já fizeram e do que outras do gênero. Então, aproveitemos o "momeinto". A seco e talvez com outra banda melhor depois, até que teria sido mais divertido.

Mas os "matadores" devem achar que estão por cima da carne seca. Nem permitiram que as publicações credenciassem fotógrafos (que sorte a deles), só fornecendo imagens feitas por um fotógrafo oficial, o que provavelmente não vai dar a real dimensão dos transtornos de quem pagou até R$ 350 para enfiar o pé na lama. Pelo menos a qualidade técnica do som estava boa, os efeitos de luz eram bonitos, a animação do público era espantosa e a banda tocou quase tudo o que os fãs esperavam ouvir.

O problema maior é que os Killers têm três ou quatro canções que se repetem. Lá pela quinta do roteiro, a gente se perguntava: Ué, mas já não tocaram essa? Até que de fato veio uma segunda versão, acústica com o vocalista Brandon Flowers ao piano, de Human, hit do álbum Day & Age (2008) que abriu o show. Com resultado eficaz, eles "queimaram" outros hits logo de cara - Somebody Told Me (do álbum Hot Fuss), For Reasons Unknown e Bones (ambos de Sam"s Tour) - porque, mais do que nunca, era necessário para compensar o desconforto de quem estava na lama.

Não só por isso, o show caberia melhor num ambiente menor, fechado. Era de duvidar que eles pudessem encher um espaço daquele (grande e ruim), por esse preço, e logo depois de dois grandes festivais de rock. E sem nenhuma outra atração complementar, além de água por cima e por baixo. Até que nesse aspecto não foi mal: cerca de 12 mil pessoas, segundo a produção, pularam e se sujaram ao som do dance-rock da banda, que cresce ao vivo, com uma tremenda vontade de ser um U2.

Brandon Flowers é carismático, bom cantor, melhor no palco do que nas gravações de estúdio, deve sobreviver em carreira-solo. Ensaiou frases em português: como "que noite molhada", "o seu coração ainda está batendo?", além dos habituais "boa noite" e "obrigado".

O roteiro teve canções de Day & Age em demasia, mas compensadas com hits dos anteriores - incluindo Jenny Was a Friend of Mine e When You Were Young no bis -, que os fãs sabiam de cor. Teve também cover de Joy Division (Shadowplay, incluída no álbum Sawdust) e trecho de uma música que "ficou", Can"t Help Falling in Love (Peretti/Creatore/Weiss), clássico do repertório de Elvis Presley, que serviu de introdução a Read My Mind. No fim, ironicamente, teve até chuva de papel picado.

Secos & Molhados

CABANA BACANA: A salvação dos convidados foi o camarote da MTV. Não dava para ver direito o show de lá de dentro, mas uns pit stops, com saborosos salgadinhos, bebida a rodo, sofás e banheiro limpo, foram providenciais. O casal Karina Buhr e Duda Vieira foi um que ficou mais no seco do que vendo The Killers. Marcos Mion e Junior Lima também passaram pela tenda.

SALVE O DJ: Depois do show, o camarote ganhou ares de balada. Houve quem achasse que estava melhor do que o show. O DJ Malasia tocou muita música boa, "que fica" - clássicos de Tim Maia, Jackson 5, Beatles, Tom Tom Club, Roberto Carlos, James Brown, com caras na faixa dos 20 anos cantando junto.

SÓ CHOVE: Está cada vez mais difícil ver shows ao ar livre. Desde dezembro de 2008, com Madonna no Maracanã, os fãs penaram com o aguaceiro em shows de Oasis, Iron Maiden, Roberto Carlos, Sonic Youth, Iggy Pop, Faith no More. E sexta tem AC/DC no Morumbi. Haja capa e galocha. Por falar nisso, pé frio e Killers têm a ver. Em 2007, no TIM Festival, com atraso absurdo, o show da banda terminou quase às 5 horas da manhã.

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