Ho Chi Minh vai à cozinha

Muitos se espantam com o fato de o vietnamita Ho Chi Minh (1890-1969), um dos revolucionários mais famosos do século 20, que liderou a expulsão dos japoneses, franceses e americanos de sua nação, ter começado a vida na cozinha. É a mais pura verdade. Antes de virar líder político e guerrilheiro, ele manuseou panelas, frigideiras, fornos, fogões, travessas e pratos. Foi garçom, ajudante de cozinheiro, chef e pâtissier. Sua especialidade não seria a culinária asiática, porém a francesa. Pena que as informações se revelem minguadas ou divergentes. Os biógrafos oficiais do proclamador da independência do Vietnã, adepto do marxismo-leninismo, nunca pesquisaram isso profundamente. Homem discreto, ele falava pouco de seu passado. Mestre em disfarces, nasceu Nguyen That Thanh e trocou diversas vezes de nome. Com o pseudônimo Ho Chi Minh (''''aquele que ilumina''''), tornou-se o primeiro presidente da República Democrática do Vietnã, cuja independência proclamou em 1945. Entretanto, a Britannica Concise Encyclopedia garante que efetivamente deixou o Vietnã em 1911, no vapor francês Amiral La Touche-Tréville, como ajudante de cozinha. A embarcação fazia a rota Haiphong-Marselha. Atracava em portos do Mediterrâneo e, mais adiante, do mundo. Ho cozinhou a bordo até 1915, quando encerrou a etapa marinheira. Em muitas ocasiões, porém, interrompeu o trabalho no mar para escalas em restaurantes de terra. Na fase seguinte da vida instalou-se em Paris, onde permaneceu de 1917 a 1923. Ali se converteu ao socialismo e ajudou a fundar o Partido Comunista Francês. Ocasionalmente, viajava para conhecer capitais européias. Os ingleses acreditam que, entre 1913 e 1919, esteve em West Ealing, West London e, ainda, em Crouch End, Hornsey, no norte de Londres. Pensam que foi chef no Drayton Court Hotel, da The Avenue, em West Ealing. Dizem que se notabilizava pelo preparo de aves, sobretudo galinhas. Contam que se aperfeiçoou em pâtissierie com o mestre Auguste Escoffier. Na ocasião, o cozinheiro francês que revolucionou a culinária ocidental comandava o restaurante do Carlton Hotel, da Rua Haymarket, cujo prédio foi bombardeado na 2ª Guerra Mundial. Reerguido em 1959, hoje abriga o consulado neozelandês. Numa das paredes, exibe uma ''''Placa Azul'''' (lápide permanente, para recordar um evento ou pessoa importante). Afiança que Ho trabalhou no local. Algumas cidades do mundo pretendem ter hospedado e dado emprego na cozinha ao herói do Vietnã. Uma é Milão, na Itália. O povo sustenta, sem contudo documentar, que ele cozinhou na Antica Trattoria della Pesa, entre as décadas de 10 e 20. Fundada em 1881, a casa ainda funciona no Viale Pasubio, 10. Ho teria retornado como cliente, nos anos 30. Em 1990, militantes socialistas afixaram uma placa evocativa na fachada do estabelecimento, com a seguinte inscrição: ''''Esta casa foi freqüentada pelo presidente Ho Chi Minh durante suas missões internacionais nos anos 30 em defesa da liberdade dos povos.'''' Outra cidade candidata a tê-lo recebido é o Rio de Janeiro. No dia 8 de janeiro passado, a jornalista Luciana Fróes, em seu blog gastronômico, um dos mais ágeis e apetitosos do Brasil, levantou a possibilidade de ele haver feito bico em algum restaurante carioca. Que Ho conheceu a cidade, não existe a menor dúvida. Astrojildo Pereira (1890-1965), um dos fundadores, em 1922, do então Partido Comunista do Brasil, ouviu a confirmação do próprio camarada (o tratamento usado entre os comunistas) e a relatou em depoimentos. Durante uma viagem de navio, o comandante asiático precisou desembarcar no Rio para tratamento de saúde, hospedando-se por três meses numa pensão do bairro de Santa Tereza. Em 1924, conversando em Moscou com Astrojildo, mencionou o episódio e se declarou impressionado com a zona do mangue, ''''o mau cheiro e o mercado do sexo''''. Até São Paulo gostaria de ter acolhido o chef Ho. No livro Nos Bares da Vida (Editora Senac, São Paulo, 1998), Lúcia Helena Gama levanta essa hipótese. Ele teria conseguido emprego no extinto restaurante O Careca, situado na altura do número 1.100 da Rua Guaicurus, no bairro da Lapa. ''''Era tripulante ou cozinheiro de um navio francês, que viajava pro sul, e teve uma crise de apendicite aguda, descendo no porto de Santos, pra ser operado'''', registrou a autora. ''''Foi operado. Enquanto isso, o navio foi até Buenos Aires e voltou, mas ele ainda não estava em condições de viajar. Ficou aqui até que o navio passasse de novo, e nesse período teria vindo a São Paulo e trabalhado num restaurante, O Careca.'''' Isso é tudo o que sabemos. Os problemas são as referências exíguas ou contraditórias. Na versão paulista, por exemplo, o restaurante citado só abriu as portas na década de 40. Nessa época, Ho já se aposentara da cozinha e estava completamente entregue à política vietnamita. Poularde au gros sel* Tempo: 2 horas Rendimento: 4 porções Ingredientes   Caldo 3 litros de água 400 ml de vinho branco seco 100 ml de vinagre de vinho branco 5 grãos de pimenta-do-reino 1 cebola com um cravo espetado 150g de cenoura 100g de aipo 100g de échalotes (ou cebolas roxas) Galinha 1 galinha de 1 kg de peso, aproximadamente 12 cenouras, cortadas na forma de bastões sextavados, sem as pontas 12 cebolinhas pequenas sem a casca Talos de cebolinha verde, cortados ao meio 1/2 cabeça de alho Sal e pimenta-do-reino moída, a gosto Para temperar Sal grosso Preparo Caldo Em uma panela, deixe ferver durante 30 minutos todos os ingredientes do caldo. Galinha Tempere a galinha por dentro e por fora com pimenta e um pouco de sal. Finalização Coloque a galinha na panela, com o caldo. Tampe e deixe em fogo baixo durante 1 hora e 30. Vinte minutos antes de terminar o cozimento, retire a galinha e coe o caldo do cozimento. Introduza, então, as cenouras em bastão, as cebolinhas, os talos de cebolinha verde e o alho. Devolva a galinha à panela. Quando ela estiver macia, coloque-a em um recipiente fundo, com os legumes, os temperos e o caldo do cozimento. Ao comer, vá retirando os pedaços de galinha e temperando-os com sal grosso. * Receita preparada por Auguste Escoffier no Carlton Hotel da Rua Haymarket.

jadiaslopes@terra.com.br, O Estado de S.Paulo

07 Fevereiro 2008 | 03h33

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.