Ed Ferreira/Estadão
Ed Ferreira/Estadão

Homem de confiança de Cunha tem filha na prefeitura do Rio

Danielle Alves, cujo pai foi citado por delator como receptor de propina, foi requisitada para nomeação a pedido do deputado federal, segundo nota de Eduardo Paes

Juliana Dal Piva, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2015 | 09h00

Rio - Apontado pelo delator Fernando Falcão Soares, o Fernando Baiano, como receptor de propinas pagas ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), Altair Alves Pinto trabalha com o peemedebista desde 1999, antes mesmo de o político ser eleito deputado federal. Danielle Porcari Alves, uma das filhas de Altair, foi nomeada assessora política da Casa Civil da Prefeitura do Rio no ano passado a pedido de Cunha.

Altair e parentes também possuem empresas que exploram pedras ornamentais no interior do Espírito Santo. Ele e uma irmã são donos da Indústria Aladin Mármores e Granitos, com sede na zona rural de Muqui, município na região sul do Espírito Santo. No mesmo endereço e telefone da Aladin funciona a Guarujá Granitos, que pertence a Danielle e sua mãe, Marilene Porcari Alves. Uma das principais obras onde a Guarujá trabalhou foi a reforma do estádio do Maracanã, na zona norte do Rio.

Altair veio à tona na investigação da Procuradoria-Geral da República (PGR) sobre a corrupção na Petrobrás, após a delação premiada de Fernando Baiano, conhecido como operador do PMDB e um dos réus da Operação Lava Jato. De acordo com Baiano, o assessor recebeu entre R$ 1 milhão e R$ 1,5 milhão em dinheiro vivo em nome de Eduardo Cunha como parte de uma propina total de US$ 5 milhões – paga com atraso ao parlamentar porque outro lobista, Júlio Camargo, ficou devendo. A propina era relativa à contratação de navio-sonda pela petroleira. Baiano disse que efetuou os pagamentos a Altair no escritório de Cunha no centro do Rio, em outubro de 2011.

Danielle Porcari Alves foi nomeada pelo prefeito Eduardo Paes (PMDB) funcionária da Casa Civil da prefeitura em 2014. Ela é médica veterinária formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e concursada pela Prefeitura de Mimoso do Sul, cidade vizinha de Muqui. O processo de transferência começou em 18 de março do ano passado, quando o titular da pasta era Pedro Paulo Teixeira, atual secretário municipal de Governo e pré-candidato do PMDB à sucessão de Eduardo Paes em 2016. A nomeação de Danielle no Diário Oficial ocorreu em 23 de junho de 2014.

Procurado pelo Estado, Paes afirmou, por meio de nota, que “a servidora foi requisitada pelo prefeito a pedido do deputado federal Eduardo Cunha”. Danielle foi nomeada para exercer a função de assessora política, com salário de R$ 1.308,92. O secretário Pedro Paulo informou, também por nota, que a aprovação da transferência de Danielle ocorreu quando ele já não era o titular da Casa Civil.

A empresa de Danielle e sua mãe, a Guarujá, forneceu e instalou materiais de banheiro do Maracanã na reforma para a Copa do Mundo, realizada no ano passado. A funcionária que se identificou como Júlia disse que a Guarujá forneceu e instalação divisórias, bancadas e cubas de todos os banheiros e vestiários do estádio.

“Nós fizemos dos banheiros as divisórias e bancadas”, afirmou a funcionária, acrescentando que a Guarujá também trabalhou na área VIP do estádio. “Foi retirada uma parte do piso e a gente refez. A parte do piso das escadas (rolantes) também”, completou ela.

No site da empresa, os clientes podem verificar fotos de operários trabalhando no estádio. A marmoraria informa que, “primando sempre pela qualidade no atendimento ao cliente e respeitando às necessidades de cada um deles, a Guarujá teve o prazer de participar das obras de reforma do estádio do Maracanã, que serviu de palco para a final do evento da Copa do Mundo.” Apesar do trabalho na Prefeitura do Rio, até julho deste ano, o perfil de Danielle no Facebook registra mensagens para compra de material e equipamentos da empresa.

O Tribunal de Contas do Estado (TCE) não soube informar o valor pago à empresa pelo serviço. De acordo com o TCE, a Guarujá pode ter sido subcontratada pelo consórcio formado pelas empreiteiras Odebrecht e Andrade Gutierrez. OTCE informou que só existem registros diretos dos pagamentos entre o governo e o consórcio. A Guarujá e a Aladin nunca possuíram contratos diretos com o governo do Rio.

Quando Cunha dirigiu a Companhia Estadual de Habitação (Cehab), em 2000, durante o governo de Anthony Garotinho (1999-2002), Altair foi assistente da presidência. Cunha foi deputado estadual entre 2001 e 2003. No período, Altair esteve lotado no gabinete do deputado na Assembleia Legislativa do Estado do Rio. Depois, foi trabalhar com o deputado estadual Fábio Silva (PMDB), filho do ex-deputado Francisco Silva, dono da Rádio Melodia FM, em que Cunha tem programa semanal.

Pessoas próximas a Cunha creditam a Francisco Silva a entrada dele no mundo evangélico e o impulso para sua carreira na vida pública. Foi na rádio que Cunha criou o bordão “Afinal de contas, o nosso povo merece respeito!” O Estado procurou o deputado Fábio Silva para saber quais são as funções de Altair no gabinete. O parlamentar não retornou os contatos da reportagem.

O Estado não conseguiu contato com Altair Alves Pinto e Danielle Porcari Alves em seus telefones e não obteve resposta aos questionamentos no e-mail enviado à empresa. O deputado Eduardo Cunha também não retornou os contatos da reportagem. A construtora Odebrecht, que fez parte do consórcio responsável pela obra, informou que “realiza as subcontratações em suas obras de forma adequada e compatível com os parâmetros de mercado, avaliando o melhor custo-benefício e qualidade oferecidas pelos fornecedores em suas obras.”

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