Tom Lynn/Reuters
Tom Lynn/Reuters

Hostes do vazio

Assassinos em massa têm mais frustrações e desequilíbrio do que projetos políticos

Kenneth Serbin*,

11 de agosto de 2012 | 20h17

Pouco mais de duas semanas depois do episódio no qual um estudante universitário matou 12 pessoas e feriu outras 58 em um cinema do Colorado repleto de jovens, e poucos dias antes de outro indivíduo se declarar culpado pela tentativa de assassinato de uma deputada federal americana, Gabrielle Giffords, do Arizona, um veterano do Exército dos Estados Unidos, revoltado e ligado ao movimento neonazista que defende a supremacia branca, matou sete pessoas que se preparavam para o culto num templo sikh em Wisconsin.

 

Nos últimos 20 anos, os assassinos em massa nos EUA agiram mais de 20 vezes, matando dezenas de pessoas e apavorando para sempre as comunidades. Desde os acontecimentos do 11 de Setembro, os EUA gastaram centenas de bilhões de dólares na "guerra ao terror" contra seus autores estrangeiros. Entretanto, aparentemente não há um fim pelo menos próximo de uma onda que vem sendo cada vez mais definida como "terrorismo interno".

 

O que explica essa negra praga social que ataca o país mais democrático do mundo - que elegeu seu primeiro presidente negro e onde, no entanto, existem comunidades e indivíduos que expressam um ódio profundo? Os EUA têm uma longa história de violência e de preconceitos: guerras contra os indígenas, a escravidão dos africanos, o tratamento dos imigrantes como gente de segunda classe ou de não cidadãos, as restrições em relação às mulheres, o envolvimento em guerras expansionistas imperialistas. Essa nação fundada em grandes princípios também colheu sucesso pela espada e pelas armas de fogo.

 

A conquista do Oeste Selvagem influenciou o ethos de valores nacionais americanos, fortalecendo-o por um exacerbado individualismo e coroando-o com a luta pelo sucesso, pela riqueza e pela celebridade. Não chegou lá ainda? Não se preocupe - a maior sociedade de consumo do mundo tem inúmeras atrações diversionistas para se entreter - ou para esquecer de si mesma.

 

Esses valores tornaram-se ainda mais necessários como cimento social quando os imigrantes afluíram a nosso país e começaram a ameaçar a posição da elite protestante.

 

Como país de imigrantes por excelência, os EUA se enriqueceram com todos os aspectos positivos - mas também as desvantagens - da diversidade. Sikhs, muçulmanos, asiáticos, russos, brasileiros - aqui é possível encontrar representantes de praticamente todo sistema de crenças, culturas e de todos os cantos do planeta. Essa diversidade é que torna os EUA um país fascinante, vibrante, jovem - uma nação em constante renovação e reformulação.

 

Entretanto, juntamente com o princípio da máxima liberdade individual, a diversidade também dá espaço para pessoas como o assassino do Arizona, Jared Loughner, o suposto atirador do Colorado, James Holmes, e o matador de Wisconsin, Wade Page. Como afirmou o editorial de um jornal, esses são os "esquisitos" dos EUA.

 

Porém, particularmente no caso de Page, esse comportamento esquisito tem profundas raízes históricas que foram odiadas e alimentadas pelo próprio sistema americano.

 

Imagine-se o choque e a perplexidade de muitos americanos no final dos anos 1970 quando um grupo neonazista declarou que desfilaria pelas ruas de Skokie, Illinois, perto de Chicago, lugar densamente povoado por judeus, inclusive muitos sobreviventes do Holocausto.

 

Lembrando o direito de livre expressão, conforme definido na 1ª Emenda da Constituição dos EUA, a União Americana pelas Liberdades Civis, ultraliberal, entre cujos membros há advogados judeus, defendeu os neonazistas. A Suprema Corte emitiu uma sentença favorável aos neonazistas, que, entretanto, acabaram cancelando o desfile.

 

De fato, a decisão da Suprema Corte abrandou a crise reduzindo o interesse para os neonazistas, eliminando sua condição de vítimas da negação de direitos justos e impedindo que eles usassem o caso como maneira de fazer publicidade e angariar apoio para sua organização.

 

No entanto, a decisão claramente defendeu a noção americana de tolerância para todos os credos religiosos e ideias, independentemente de quão horríveis pudessem parecer para a maioria da população. Um dos pilares da democracia americana tem sido precisamente o conceito de que a maioria não pode pisar nos direitos das minorias.

 

Tolerância significava também que os neonazistas poderiam continuar atuando como organização política e social. O governo não a aboliu. O governo e as organizações dos direitos civis monitoram continuamente os neonazistas e numerosos outros grupos que atuam nas margens da sociedade pregando o ódio. Mas enquanto essas organizações ou seus membros não cometem crimes concretos, as autoridades não podem intervir.

 

Portanto, a tolerância permite que esses grupos marginais existam. São poucos os americanos que afirmariam que deveriam ser controlados ou abolidos, porque fazendo isso estariam contrariando os direitos básicos, aumentariam desnecessariamente o poder do governo e poderiam ameaçar as liberdades e os direitos de outras organizações, mais tradicionais. A tolerância a grupos nas margens faz parte do preço pago pela democracia.

 

Como na decisão da Suprema Corte sobre Skokie, essa estratégia, que se mostra tão desconcertante quando os elementos da margem social agem insuflados por seu ódio, parece ter reduzido o crescimento a longo prazo de grupos como os neonazistas.

 

Dados coligidos pelo Southern Poverty Law Center, uma das organizações que monitoram os grupos que agem movidos pelo ódio, demonstra que as milícias de ultradireita e defensoras da supremacia dos brancos cresceram consideravelmente desde a eleição do presidente Barack Obama, em 2008. Entretanto, o movimento como um todo está cada vez mais descentralizado e desorganizado. "Há muita frustração e derrotismo no movimento nacionalista branco", disse um de seus líderes.

 

A maioria dos massacres ocorridos nas duas últimas décadas envolveu indivíduos que agiam por conta própria. No caso de Wisconsin, Page se suicidou, indicando que sua raiva tinha mais a ver com frustrações pessoais ou desequilíbrio psicológico do que com um projeto político. Ao que tudo indica, ele não deixou nenhum manifesto - nem mesmo uma nota.

 

Talvez o maior perigo para a democracia e a tolerância seja representado por grupos maiores que pregam visões peculiares que atendem a interesses pessoais. No dia 8, por exemplo, a National Public Radio (emissora de rádio estatal) transmitiu um relato sobre o escritor e orador evangélico David Barton, que reuniu ao seu redor um grande número de seguidores falando da influência do cristianismo na fundação da república e na redação da Constituição americana. Barton quer que os EUA se tornem uma nação mais religiosa segundo sua versão particular do cristianismo tradicional.

 

Historiadores profissionais refutaram as afirmações de Barton - por exemplo, de que o escravagista Thomas Jefferson foi um precursor dos movimentos pelos direitos civis. Entretanto, por causa de seus seguidores, Barton recebeu grande apoio de políticos republicanos, inclusive do senador da Flórida Marco Rubio, um possível companheiro de chapa do candidato Mitt Romney nas eleições presidenciais deste ano.

 

As ideias de Barton talvez representem uma quimera sobre o que os EUA deveriam ser - mas o poder de repetir uma mentira, e de aproveitar de pessoas que não têm uma formação suficiente de perceber que se trata de uma mentira, frequentemente é um excelente instrumento para atrair as pessoas para determinada causa. Essa mesma falta de formação contribui para o total equívoco de muitos americanos em relação a outras culturas - como a convicção de que os sikhs, que observam a paz e a igualdade, são terroristas islâmicos ou de que os brasileiros falam espanhol.

 

Individualmente, os assassinos em série parecem agir na maioria das vezes não por causa de uma ideologia ou de uma crença religiosa, mas porque buscam, em sua visão particular e perversa a atenção do público.

 

Eles também agiram porque podiam. Junto com os grupos da margem social e as afirmações inexatas de oradores e de escritores, liberdade e diversidade significam que os americanos devem conviver com um enorme arsenal de armas, rifles de assalto e outros armamentos. Apesar dos apelos da polícia para que haja um maior controle de armas, as lideranças americanas demonstram uma total falta de vontade de agir. Assim como o direito de livre expressão, o direito constitucional de carregar armas faz parte do conjunto de valores americanos - um direito reforçado pela Associação Nacional do Rifle, extremamente influente.

 

Entretanto, se as armas fossem proibidas, Loughner, Holmes e Page não poderiam realizar suas fantasias mortíferas.

 

Do mesmo modo, nessas situações, em que profissionais de saúde poderiam detectar logo no início sinais de problemas psicológicos, existe um delicado equilíbrio entre o direito do indivíduo de se ver livre de vigilância e da intrusão e o direito da população de ser protegida desses indivíduos.

 

Igualmente preocupante é o fato de que o que mantém unida a sociedade americana - o valor do sucesso - não mais consegue manter o país unido.

 

Muitas pessoas se saturaram da cultura de consumo, e para elas a única saída parece ser o recurso a emoções maiores ainda. Numa época de crise econômica como a que estamos vivendo, o estresse financeiro pessoal pode tornar-se outro gatilho.

 

Até as agências governamentais atualmente se referem às pessoas não como "cidadãos", mas como "clientes". Os próprios americanos começam a perder rapidamente a noção de cidadania, que está sendo substituída pelos direitos do consumidor.

 

Na esteira dos ataques do 11 de Setembro, o presidente George W. Bush não pediu à população que participasse mais da vida política, mas exortou as pessoas a ir para Disney World na Flórida - "levem suas famílias e desfrutem da vida que queremos que seja desfrutada".

 

O escritor Gore Vidal, ele próprio uma espécie de outsider que estava convencido de que o governo de George W. Bush sabia de antemão dos ataques do 11 de Setembro, falecido no dia 31, disse certa vez que os Estados Unidos "não são uma civilização, mas um mercado selvagem, e nós merecemos o lixo que temos".

 

Lixo pode ser entendido em termos de todos os bens de consumo mais baratos e de pior qualidade - mas também em termos da qualidade das nossas ideias e valores.

 

Sem cidadania, os valores do consumismo não podem sustentar uma nação.

 

Talvez, no fundo, esses assassinos em série procurassem apenas fugir desse vazio./TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

*É diretor do Departamento de História da Universidade de San Diego, Califórnia

 

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