Julia Rettmann/AE
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Hot-dog com pedigree

Numa esquina pacata na parte norte de Chicago, um burburinho de pessoas enfileiradas forma-se religiosamente de segunda a sábado perto da hora do almoço. Mas não é algum tipo de bênção que elas esperam: é o hot-dog do Hot Doug's.

José Orenstein / Chicago, O Estado de S.Paulo

18 Julho 2013 | 03h02

A pequena e colorida lanchonete ostenta o título informal de melhor cachorro-quente dos Estados Unidos. É figurinha repetida nas listas de must eat que pululam pela rede. No mês passado, ela virou até livro: Hot Doug's - The Book, referendado por gente como Anthony Bourdain, o chef globetrotter. Mas o falatório não é à toa.

A honestidade, o olho do dono e a ótima matéria-prima que compõem a receita do Hot Doug's relembram-nos de que não há nada de novo sob o sol da gastronomia - ainda que tão poucos pelo mundo equilibrem esses princípios básicos.

No Hot Doug's, o cardápio gira em torno de variações sobre o tema da salsicha acolchoada em um pão. E, claro, os incontornáveis refrigerante e batatas fritas estão lá.

A coisa toda funciona sob a batuta do sempre atento e simpático Douglas Sohn (foto) - o presidente do Hot Doug's, como atesta seu cartão de visitas. Ex-estudante de gastronomia e editor de livros culinários, ele achava que os cachorros quentes que comia em Chicago eram apenas medianos. Resolveu então fazer do jeito dele.

E ele está sempre lá: Doug recebe pacientemente cada um dos clientes de trás de seu balcão. Faz sugestões de que acompanhamentos vão melhor com que tipo de salsicha e, às vezes, até freia o impulso quase instintivo para um marinheiro de primeira viagem de pedir tudo o que está no menu.

A oferta é vasta: são 11 cachorros-quentes fixos no cardápio - do clássico Chicago style (pão com sementes de papoula, mostarda, relish de pepino verde fosforescente, picles, cebola picada caramelizada e tomate) ao Elvis (feito com salsicha de bratwurst e repolho).

Tem ainda uma oferta variável de cachorros-quentes mais caprichados, que muda de tempos em tempos. Um dos mais concorridos, que volta e meia aparece no quadro negro de especiais do dia, é o politicamente incorreto e corretamente delicioso cachorro-quente de salsicha de carne de pato banhada em sauterne, adornada por fartos nacos de foie gras. É o lado chef de Doug, que inventa salsichas de cordeiro, ou coelho, acompanhadas por queijo feta ou roquefort. A quem o acusa de conspurcar a pureza do cachorro-quente, responde: "Não acredito em regras na cozinha. O importante é dar prazer".

Triunfar com cachorros quentes no Estados Unidos, terra que popularizou o sanduíche, não é para neófitos. Ainda mais em Chicago: a cidade é talvez o epicentro da cultura hotdogueana no país, fato explicado ao menos em parte pela história, já que grandes levas de imigrantes do leste europeu aportaram por lá, no século 19, trazendo na mala a tradição de embutir.

Mas a melhor notícia sobre o Hot Doug's é que, embora seja já um destino turístico, mapeado pelos gastrônomos, foodies e que tais, permanece honesto. Abre de segunda a sábado das 10h30 às 16, não tem filiais, e é barato: os hot-dogs do cardápio fixo vão de 1,50 a 4 dólares. E, enquanto está aberto, o dono nunca tira a barriga do balcão.

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