Ida de cúpula do Planalto à Aman põe em risco futuros oficiais do Exército

Presidente devia ler os papéis da FEB e seguir seu exemplo em vez de desfilar na Academia de Oficiais para dar uma palestra para os cadetes

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2020 | 09h33

Caro leitor, 

Pouco ou quase nada ficou na memória do País do 22 de agosto de 1945, quando desembarcou no Rio – vindo da Itália – o 1.º Regimento de Infantaria, o Sampaio. Foi mais um momento fugaz na República, no qual Fausto veria a redenção que, por fim, se perde. A cidade parou para receber os veteranos da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Os soldados desfilaram em seis colunas pela Avenida Rio Branco. Quando entraram na Avenida Marechal Floriano, um homem mirrado, quase raquítico, rompeu o cordão de isolamento da multidão para abraçar o comandante da tropa, o general Oswaldo Cordeiro de Farias, que passava em automóvel aberto. 

Assim contou o comandante da artilharia divisionária da FEB: "Era o Prestes (Luiz Carlos Prestes), que eu conhecia. Abraçou-me efusivo. No mesmo dia, foi à minha casa e nas semanas seguintes participou de todas as homenagens à FEB." Cordeiro contaria que nunca rompera com o secretário do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e companheiro de coluna. Ele o havia visitado na cadeia, após a sublevação de 1935, duas ou três vezes. “Pois em todas ele tentou atrair-me para o comunismo. Eu lhe dizia: 'Prestes, deixe de tolice, pois eu não sou catequizável'.” 

A FEB representou um dos raros momentos na vida da República em que todas as forças políticas do Brasil reconheceram em seus soldados a Nação em armas. Os pracinhas não foram lutar pelos poderes constituídos ou manter o que entendiam ser a ordem pública ou  combater, como em 1932, uma parte do País – mesmo que minoritária ou tomada por ideais diferentes dos compartilhados pela maioria da oficialidade –, nem atuaram em busca de objetivos nacionais permanentes, razão de ser de um Estado para quem a liberdade era apenas instrumental. 

A história da Força Expedicionária pode agora contar novamente – eis uma boa notícia – com as folhas de alterações dos marechais Cordeiros de Farias e Olympio Falconière da Cunha. Depois de buscas no Arquivo do Exército, no Rio, foram achados os papéis dos dois marechais, que não haviam sido localizados quando a reportagem esteve na sede do arquivo, conforme o leitor viu aqui.  De imediato, as 1.255 páginas do acervo dos dois comandantes (713 de Falconière e 542 de Cordeiro de Farias) foram digitalizadas, como já havia ocorrido, em março, com os documentos dos também marechais Mascarenhas de Moraes e Zenóbio da Costa.

Nas quatro pastas é possível ver a tragédia de um Exército dividido pela política. Basta olhar as folhas de número 257 até 264 dos papéis de Cordeiro de Farias. Ali se mostra como o Exército tratou o tenente rebelde que voltara do exílio na Bolívia, onde deixara o amigo Prestes. Cordeiro acabou preso. Foi levado primeiro ao Forte São João e, depois, para a Fortaleza Santa Cruz. Ficou meses detido antes de ser solto em 1929, absolvido na 1.ª instância da acusação de deserção pelo tempo passado na Coluna Prestes.

Por pouco ele não ficou detido sob as ordens do então tenente-coronel Mascarenhas de Moraes, o futuro comandante da FEB. É que em março de 1929, Mascarenhas assumiria o comando da fortaleza, que abrigava os oficiais presos por crimes em razão das sedições dos anos 1920. No fim do ano, uma decisão do Superior Tribunal Militar (STM) reverteu o veredicto da 1.ª instância e condenou Cordeiro a 7 meses de cadeia, o que fez o tenente voltar à prisão, desta vez, no 1.º Regimento de Cavalaria.

No ano seguinte, a revolução de 1930 embaralharia as cartas da política, criando novas divisões na Força.  Foi só com a FEB que legalistas dos anos 1920 – Mascarenhas e Zenóbio – e revolucionários – Cordeiro e Falconière – lutariam ao lado de oficiais comunistas, como o major Henrique Cordeiro Oest, que comandou o 2.º Batalhão do 6.º Regimento de Infantaria da FEB, e o tenente (Cavalaria) Kardec Lemme. Tinham agora estrangeiros como inimigo comum, em vez de antigos camaradas

A coesão desse Exército duraria pouco. Os anos após a volta da FEB mostraram uma Força dividida entre generais como Cordeiro de Farias – eleito governador de Pernambuco em 1954 pelo PSD –, Caiado de Castro (senador pelo PTB),  Juarez Távora (candidato a presidente pela UDN), Henrique Teixeira Lott (candidato a presidente pelo PSD) e Cordeiro Oest, deputado pelo PCB e depois PSP. As disputas transbordavam os quartéis e – aliadas à prática das correntes civis de buscar nas Armas o árbitro para suas brigas – mergulharam o País na instabilidade política até o golpe de 1964. 

Com a abertura, o presidente Ernesto Geisel decidiu consolidar a retirada dos militares da política partidária, afastando dela os oficiais em nome do profissionalismo e da construção de uma República em que o Exército não fosse a única força organizada. O Brasil não era mais aquele País cujas distâncias regionais e morfologias distintas predominavam diante dos planos de organizá-lo desde a sua capital, no Rio. Não só a FEB ficara no passado, mas também o País descrito por Gilberto Freyre em Nação e Exército. 

Os militares se retiraram da política, como jamais na República. E assim foi até 2018. Após a eleição de Jair Bolsonaro, oficiais ficaram preocupados com a associação do governo às Forças Armadas e o risco de a política entrar nos quartéis. Já em 1893, Rui Barbosa escrevera no Jornal do Brasil:  "Entre o Exército e a política se deve, portanto, levantar a mais alta muralha. Segue-se que se abdique sob as armas a qualidade primitiva de cidadão? Não: apenas se suspende. Daí um limite assaz difícil de fixar, mormente em quadras de revolução. O exército deve interessar-se pelos negócios do país, mas conservando-se alheio à direção deles."

A muralha, no entanto, tem se revelado para Bolsonaro uma simples cerca. Quem viu a sua caminhada com os generais Augusto Heleno (GSI), Luiz Eduardo Ramos (Governo), Walter Braga Netto (Casa Civil) e Fernando Azevedo e Silva (Defesa) no dia 24 de setembro na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) não teve dúvida de que a política desfilava no lugar de formação dos futuros oficiais do Exército, aqueles homens e mulheres que vão conduzir a Força nos próximos 30 anos. É o espetáculo de uma facção, o bolsonarismo – sob a desculpa de palestra do presidente – que os jovens cadetes vão carregar na memória.

Não há como haver isenção, apartidarismo e neutralidade quando a um presidente, que já é candidato à reeleição, é permitido usar o anfiteatro da academia para uma "palestra". E isso tudo sem o uso de máscaras em ambiente fechado – é notável o contraste com a cerimônia de posse do general Paulo Roberto Rodrigues Pimentel, ocorrida dias antes na Aman, quando todos os presentes usavam máscaras. Ainda mais após a morte do general Carlos Augusto Fecury Sydrião, comandante do CIE, vitimado pela covid-19.  Não é só a disciplina que a política afugenta dos quarteis; ela também destrói a camaradagem.

Os generais-ministros – os que dizem fazer parte "de um governo sem corrupção", mas com o Centrão e com o sucesso do advogado Fred Wassef como lobista, conforme revelou a Revista Crusoé – não devem ver problema no desfile na Aman. Fausto apostou a alma com Mefistófeles. "À liberdade e à vida só faz jus quem tem de conquistá-las diariamente", dizia o personagem de Goethe. Mas ele quisera ver um mundo novo: "E em solo livre, ver-me em meio a um livre povo”. Os generais do Planalto correm o risco de ver apenas o País de Gilberto Freyre, aquele cuja Nação é desorganizada, na qual, "mesmo que o Exército seja moral e tecnicamente primoroso, esta Nação corre o perigo de se transformar em cenário de paradas ou simples campo de manobras”.

 

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

Bolsonaro e os Militares

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