Idade estipulada pelo projeto é vista como pouco ambiciosa

Para consultora, MEC fez uma 'escolha política confortável'; pesquisador da UnB vê iniciativa como uma 'solução pontual'

Davi Lira, O Estado de S. Paulo

09 de novembro de 2012 | 02h04

O lançamento oficial do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa, em Brasília, foi visto como um compromisso importante firmado pelo governo federal com os Estados e municípios para a melhoria da educação, mas a idade estipulada na meta de alfabetização e o acompanhamento dos resultados são pontos criticados por especialistas consultados pelo Estado.

"O mote de alfabetizar aos 8 anos, ao final do 3.º ano do ensino fundamental, é péssimo. Foi uma escolha política confortável para o Ministério da Educação (MEC)", afirma a consultora educacional Ilona Becskeházy.

Segundo Ilona, a leitura de textos simples e a compreensão de um ditado, por exemplo, poderiam se dar aos 5 ou 6 anos, como ocorre na maioria das escolas privadas. "A criança tem capacidade para se alfabetizar aos 6 anos. Estamos sendo pouco ambiciosos", comenta.

Para o acompanhamento dos resultados do pacto, o MEC vai aplicar duas avaliações: a Provinha Brasil - ao final do 2.º ano do ensino fundamental -, e outra ao final do 3.º ano. Essas iniciativas podem causar certo "estresse" nas escolas, na opinião da professora da Faculdade de Educação da USP Silvia Gasparian Colello.

"A gente não pode cair na loucura frenética de avaliar de forma demasiada. Hoje, as avaliações acabam se sobrepondo umas às outras, as federais, as estaduais, as municipais e as da própria escola. Precisamos racionalizar as práticas de acompanhamento dos resultados."

Segundo o pesquisador da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB) Antônio Testa, além de atrasado, o pacto deveria ser trabalhado como uma política de Estado - e não de governo.

"Minha preocupação é que esse pacto saia da agenda rapidamente, como ocorreu com o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), e não se perpetue como uma política de Estado", afirma.

Segundo Testa, o quadro de melhoria da educação básica, nos primeiros anos do ensino fundamental, só irá se concretizar depois que as famílias brasileiras passarem a participar mais da vida escolar. "Soluções pontuais para problemas estruturais não são capazes de mudar a realidade da educação básica. Os pais têm de participar mais e os governos, investir na educação infantil", comenta.

Pé no chão. Membro do Conselho Nacional de Educação, Mozart Neves Ramos diz que o programa pode ser visto como um "pacto pé no chão". De acordo com ele, pelas diferenças regionais dos mais de 5 mil municípios brasileiros que já aderiram ao pacto, o MEC acertou em um projeto "cauteloso e real".

"O querer não é poder. Temos um País com realidades muito díspares. Mas é claro que Estados como o Rio e o Ceará, que já têm programas de alfabetização avançados, podem reduzir essa meta", avalia.

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