'Ideia é recriar o tato como um sexto sentido'

Segundo pesquisador, tecnologia possibilitará que quadriplégicos recobrem sensação táctil com vestes robóticas

Entrevista com

O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2011 | 03h03

Como a mesma tecnologia testada nos macacos funcionaria em seres humanos?

A ideia é criar um sexto sentido. Ele vai possibilitar que o paciente recobre a sensação tátil ao usar uma veste robótica, podendo identificar o tipo de terreno onde está pisando ou a textura de um objeto que segura com uma mão biônica.

Como a nova descoberta será integrada à veste robótica que pode possibilitar que quadriplégicos voltem a andar?

A veste terá sensores de pressão que criarão um padrão, e esse padrão será traduzido em um estímulo elétrico proporcional à textura dos terrenos ou objetos. Tudo isso é entregue ao cérebro, que funciona como um reconhecedor de padrões e associa à nova sensação. Partindo da mesma lógica, outras pesquisas podem levar à identificação da temperatura, por exemplo, tornando as próteses biônicas mais sensíveis. O nosso experimento provou, pela primeira vez, que é possível criar uma interface cérebro-máquina-cérebro, permitindo o desenvolvimento de um exoesqueleto robótico para que pacientes paralisados possam receber feedbacks do mundo exterior e, com isso, recobrem a sensação tátil através de sensores. Já havíamos feito uma previsão teórica de que isso era possível, mas ainda não havíamos feito uma demonstração que provasse, e isso muda com o estudo publicado na Nature. Vencemos um grande desafio: os estímulos são enviados ao cérebro ao mesmo tempo que registramos a atividade elétrica do córtex. Ao mesmo tempo que os sinais elétricos do cérebro podem controlar o avatar do corpo, o órgão pode receber um feedback do que esse avatar encontra no espaço virtual.

Muda algo no projeto Walk Again e no plano de fazer um tetraplégico dar o pontapé inicial da Copa do Mundo de 2014?

Estou propondo ao governo e já tenho sinalização de que querem participar de um projeto de seis anos para demonstrar o projeto Walk Again para o mundo, na Copa e nas Olimpíadas que serão realizadas no Brasil. Queremos fazer demonstrações gradualmente mais complexas do exoesqueleto robótico que fará um tetraplégico voltar a andar.

Quais os próximos passos para a concretização do projeto?

O governo federal deve anunciar nos próximos dias um apoio para trazermos o projeto para Natal, para o Câmpus do Cérebro. Lá nós já temos um avatar realístico do corpo completo de um macaco, agora teremos de criar um modelo igual para o ser humano. Com ele poderemos treinar os pacientes quadriplégicos a interagir com um avatar do corpo. Será como o Flight Simulator (jogo de simulação e treino para pilotos de avião) do avatar que será usado depois pela pessoa. / R.C.

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