Igreja Renascer tem emissora de TV em sede irregular

Prédio no Cambuci funciona há dois anos e meio e nunca passou por vistoria do Corpo de Bombeiros

Bruno Tavares e Rodrigo Brancatelli, de O Estado de S. Paulo,

29 Janeiro 2009 | 09h49

Instalada em um galpão com reboco aparente, sem molduras nas janelas, com cara de abandonado, a sede da emissora de TV Rede Gospel está há dois anos e meio com a documentação irregular e nunca passou por vistoria do Corpo de Bombeiros, como determina a legislação municipal. O imóvel fica no número 1.410 da Avenida Lins de Vasconcelos, na região central, a cerca de 300 metros da Igreja da Renascer em Cristo cujo teto desabou há menos de duas semanas e matou nove mulheres. Voltada para o público evangélico neopentecostal, a TV pertence à Fundação Evangélica Trindade, administrada pela Renascer.   Veja também: Estrutura do templo da Renascer será removida nesta quinta Menina ferida em desabamento recebe alta  Galeria de fotos: imagens do local e do resgate às vítimas  Todas as notícias sobre o desabamento na Igreja Renascer     Espécie de púlpito eletrônico do casal de líderes da Igreja, Sonia e Estevam Hernandes, a sede da Rede Gospel abriga desde julho de 2006 os estúdios do canal e os arquivos de fitas de vídeo. Pelo menos 40 pessoas trabalham diariamente no local. Segundo o advogado José Fernando Cedeño de Barros, nomeado há dois anos interventor judicial da Rede Gospel depois de denúncias do Ministério Público (MP), o imóvel não tem saída de emergência e muito menos janelas. "Trata-se de uma verdadeira tumba", diz. "Do ponto de vista jurídico, a Fundação Trindade, tentáculo da Igreja Renascer, não encontra a mínima condição de funcionamento: ausência de documentação fiscal ou, na melhor das hipóteses, documentação fiscal irregular, balanço inexistente e contas com saldo negativo."   No primeiro semestre do ano passado, depois de um pedido do MP, a Justiça de São Paulo determinou que o Corpo de Bombeiros fizesse uma inspeção de emergência. O Estado obteve um ofício da Polícia Militar que exemplifica a condição do imóvel - em resumo, a Fundação Trindade nunca obteve auto de vistoria dos bombeiros nem elaborou projeto técnico para conseguir as autorizações necessárias para o funcionamento dos estúdios. "Em razão da anterior ocupação ser de um comércio de veículos e atualmente ser uma Fundação Evangélica, com grande número de concentração de pessoas, sem o devido projeto técnico, o responsável deve adequar os equipamentos necessários de prevenção e proteção a combate de incêndios", diz o documento. "Até que se adote tal providência, a edificação estará irregular perante esta corporação."   A edificação continua irregular até hoje perante os bombeiros, pois ainda não obteve auto de vistoria. Procurada pela reportagem, a Secretaria de Coordenação de Subprefeituras confirmou que não há licença de funcionamento para o endereço. Segundo a Assessoria de Imprensa da Renascer, "já houve adiantamento de várias medidas necessárias para a aprovação do auto de regularização. Detectores de fumaça, pinturas de sinalização, extintores bem localizados, tudo já está instalado e em funcionamento; falta, contudo, um ou outro detalhe, pequeno. Assim, será possível chamar a vistoria".   Ainda de acordo com a assessoria, em novembro do ano passado, a Rede Gospel entrou com os primeiros documentos nos bombeiros, mas ainda não concluiu o processo. Esse não é o único problema da Fundação Trindade. Em setembro de 2007, a Justiça decretou a intervenção da entidade e o afastamento de seu presidente, Estevam Hernandes Filho. Na opinião do juiz Marco Aurélio Costa, da 2ª Vara da Família, há indícios de que a Fundação Trindade se converteu no "grande motor propulsor de arrecadação de dinheiro de fiéis da Renascer".   Na ação penal, o juiz também afirma que "é exposta a ligação íntima da Fundação com outras empresas, todas conexas com a Igreja Renascer, o que a coloca na condição de instrumento utilizado pelos seus dirigentes para a consecução de seus propósitos delituosos".

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