'IGREJA TEM DE MUDAR POSIÇÕES'

Todos esperam a 'renovação', mas à sua maneira

PAULO SALDAÑA, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2013 | 02h07

A estudante Scarlet D'avila, de 21 anos, não vê a religião em sua vida como uma "escolha ativa". Para ela, o catolicismo foi mais uma herança familiar. "Não vou deixar a Igreja, apesar de detestar a homofobia da Igreja", dispara, lembrando que o novo papa Francisco se mostrou contra o casamento homossexual. "A Igreja só vai reconquistar os jovens se mudar algumas posições", diz. Mas de uma tradição ela não abre mão: "Quero casar na igreja, isso é dogmático para mim", brinca.

Na tarde de ontem, ela e o namorado Mateus Franco, também de 21, ambos estudantes de Medicina, passaram quase uma hora sentados no banco da Igreja São Luis Gonzaga, na Avenida Paulista. Ela foi "agradecer" pelas graças alcançadas e o namorado - que é protestante, mas gosta do papa - a acompanhou. Na conversa dos dois, as "contradições" da Igreja e dos fiéis.

"A renúncia de Ratzinger e o anúncio de um latino-americano mostra uma tentativa de se reformar, modernizar", diz Franco. "Mesmo não fazendo nada de fato para isso", completa, discordando, a namorada.

Também na Igreja - que é ligada aos jesuítas, ordem da qual faz parte o novo papa -, o universitário Edmar Lima, de 24 anos, diz acreditar que a instituição não consegue mais atrair os jovens por desinteresse de sua geração. "A maioria só quer saber de sair, esquecem o lado religioso", diz ele, que fez uma paradinha para rezar antes de seguir para a faculdade. "Mas a igreja está um pouco fechada, precisa se abrir mais."

Católica de criação, com simpatia pelo espiritismo, a bancária Andrea La Rosa, de 36 anos, acha que o anúncio do novo papa traz uma renovação para um mundo com as coisas "muito perdidas". Para ela, os posicionamentos do pontífice são valiosos. "As pessoas estão mais preocupadas com o que o papa fala. Cada vez mais gente precisa da fé para um direcionamento."

A analista de cobrança Mércia Guarnieri, de 54 anos, aproveitou uma brecha no trabalho para uma visita à capela do Pátio do Colégio, berço de São Paulo e principal referência jesuíta do País. Ela também repete a esperança pela renovação, mas com ressalvas. "Fiquei muito feliz ao saber que ele não é pela modernidade, não é favor de aborto, casamento homossexual", afirma. "Acho que não dá para misturar as coisas. Se vai abrindo muito não tem limite", diz ela, que ressaltou o modo de vida simples atribuído a Francisco.

A atenção para o social é também citada pelo professor de história Roberto Martins, de 37 anos, como uma possível marca do novo papado. "Além de atender às demandas sociais, acho que o novo papa será um reformador. Não que venha romper com dogmas, mas vai se adaptar à sociedade, o que é típico dos jesuítas", completa Martins, que chegou a ser seminarista por dois anos.

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