Igreja vira uma página e mira Terceiro Mundo

Francisco significa um 'não' à doutrina política e à escola teológica vaticanas, baseadas na obsessão pela tradição e repúdio ao reformismo

MARCO, POLITI, IL FATTO QUOTIDIANO, JORNALISTA ITALIANO, MARCO, POLITI, IL FATTO QUOTIDIANO, JORNALISTA ITALIANO, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2013 | 02h04

Artigo

Humano como Michel Piccoli (o atormentado cardeal eleito papa do filme Habemus Papam, de Nanni Moretti), tranquilo como um missionário, um contemporâneo entre contemporâneos, Jorge Bergoglio, o papa de Buenos Aires, apresenta-se a Roma e ao mundo pedindo aos fiéis que o abençoem antes de, por sua vez, abençoar "os homens de boa vontade". Assume um nome que, para o universo católico - e muito além dele - tem o significado de uma relação alegre, simples, intensa com a humanidade, a natureza e a história: Francisco.

O pontífice, que inicia a sua missão com um "boa noite", não demoniza os "ismos" da modernidade, mas propõe um "caminho de fraternidade, amor e confiança entre nós". Explica que Roma preside "na caridade" todas as Igrejas do mundo católico. E por duas vezes ressaltou da Loggia delle Benedizioni, a Sacada das Bênçãos, o vínculo entre bispo e povo.

Cinco votações bastaram para levar a Igreja a virar totalmente a página, varrendo da agenda todo temeroso apego ao passado. O golpe teatral encenado na noite de 13 de março diante de uma multidão envolvida pelo rito ancestral do renascimento, constitui um "não" seco à volta de um pontífice italiano, uma saída do horizonte europeu, em que Bento XVI concentrara suas preocupações, um repúdio evidente de homens da Cúria ou ligados aos equilíbrios da Cúria.

Caíram como pinos de boliche os candidatos considerados "fortes", já inseridos nas estruturas de poder eclesiástico - Scola, Scherer, Ouellet. A história nos dirá quanto pesou no referendo anti-Scola a pretensão de seus apoiadores (hilariante o telegrama de congratulação da Conferência Episcopal Italiana (CEI) felicitando por engano Angelo Scola) e o seu silêncio plurianual sobre a aliança entre o Vaticano, CEI e Berlusconi, aliança que se tornou incompreensível aos homens da Igreja fora da Itália.

Ela nos contará o quanto das simpatias a Scherer foram alienadas pela defesa dos gabinetes da Cúria bertoniana no dia em que os purpurados perderam a paciência com as meias-verdades sobre o Banco do Vaticano. O quanto freou o consenso em torno de Ouellet o fato dele pertencer à Cúria selecionada por Ratzinger e de fazer parte (ao lado de Scola) daquele viveiro teológico-ideológico constituído em torno da revista Communio, predileta e inspirada por Ratzinger e De Lubac para se opor aos supostos excessos dos reformadores animados pelo Concílio Vaticano 2.º.

Com a eleição de Bergoglio, primeiro papa jesuíta, afundam uma doutrina política vaticana e uma escola teológica.

Essencial - para esvaziar o campo do referendo sobre Scola e para afastar os outros ilustres duelistas - no conclave deve ter sido a rápida convergência do grupo cardinalício norte-americanoe, guiado pelo arcebispo de Nova York, Timothy Dolan, as cabeças pensantes da área francesa capitaneada pelo cardeal de Paris, André Vingt-Trois, os silenciosos reformadores agrupados em torno do cardeal austríaco Christoph Schöenborn, a maioria dos indecisos do Terceiro Mundo, muito atentos, porém, às palavras do nigeriano John Onayekan sobre a "não essencialidade de um banco para as missão do sucessor de Pedro".

Venceu a vontade enorme de novos ares, que pairava nas assembleias plenárias dos cardeais durante as quais emergia como uma nota constante a exigência de uma "mensagem positiva" para levar ao mundo e a vontade de instaurar uma relação nova entre a Santa Sé e os episcopados. Abriu um processo que levasse à concretização do princípio de colegialidade sancionado pelo Concílio a fim de ressaltar que a Igreja universal não é guiada por um monarca solitário.

Além disso, o sínodo dos bispos de outubro de 2012 já havia sinalizado que, sob a pele de uma estrutura eclesiástica formalmente subordinada à visão de Bento XVI e a um conformismo geral, crescia o anseio por uma Igreja que volte a caminhar para frente. Também o desejo de uma regeneração após tantos escândalos sexuais e financeiros. Ouviram-se naquela ocasião novas e insistentes vozes para que a Igreja fizesse um "exame de consciência sobre o modo de viver a fé", que se voltasse à cultura contemporânea com um "diálogo sem arrogância, sem agressão ideológica" e que tivesse a coragem de indagar sobre "sombras e fracassos aos quais é necessário pôr um fim".

As sementes daquela ocasião floresceram em 13 de março de 2013.

Com a eleição do papa Francisco, a América Latina irrompe no vértice da Santa Romana Igreja. Do continente europeu, o bastão passa ao Novo Mundo. Na primeira fileira projetam-se os fiéis e as experiências de regiões que reúnem a metade dos católicos do planeta e representam ainda um terço dos católicos dos Estados Unidos. O nome escolhido pelo papa Bergoglio é o símbolo de uma esperança profundamente enraizada nas massas deserdadas do Terceiro Mundo. Quando João Paulo II chegou ao Brasil em 1980, o general João Figueiredo arrumou-lhe uma visita à Favela do Vidigal, no Rio. Apareceram esgoto, cabines telefônicas e uma igreja nova em folha. Devia ter-se chamado naturalmente Santo Estanislau. Os fiéis do bairro escolheram por maioria esmagadora outro nome: São Francisco.

Vencem com a eleição de Bergoglio os purpurados que veem longe, os que, no episcopado mundial, assim como em setores da Cúria, permaneceram fiéis à lição de Paulo VI e lutaram para prosseguir na estratégia de internacionalização do pontificado. Depois da Itália, da Europa do Leste e do Oeste, chegou o momento da América Latina. O papado concretiza ainda mais desse modo sua dimensão universal na era global. É preciso destacar, no entanto, que a rapidez e a genialidade da escolha revelam que a cúpula da Igreja Católica - esse "Senado" cardinalício herdeiro da romanidade - mostra ainda uma capacidade de governo e de "visão" que muitos organismos seculares não têm (a começar da Itália). Ela foi capaz de reagir à crise violenta desencadeada pela renúncia de Bento XVI com um salto para o futuro. Por sua vez, ao sair de cena, papa Ratzinger demonstrou ter intuído de forma lúcida que um choque fortíssimo era necessário para salvar a Igreja do pântano para o qual ela havia deslizado e que o escândalo do Vatileaks tornara particularmente evidente.

Constitui uma lição da história - e uma manifestação do estado de ânimo profundo e oculto do corpo episcopal - o fato de que tenha sido eleito o homem que em 2005 havia reunido em torno de si os 40 votos da minoria reformadora inspirada pelo cardeal Carlo Maria Martini e contraposta à candidatura de Ratzinger. A eleição de Francisco põe entre parênteses o experimento ideológico ratzingueriano, baseado na salvaguarda obsessiva da identidade, tradição e desconfiança em relação ao reformismo conciliar. Bergoglio não é um progressista - nos anos 70 esteve em conflito com os seus coirmãos ligados à Teologia da Libertação. Mas é um moderado no senso positivo do termo. Um homem equilibrado, sereno, que insiste na palavra "caminho", disposto - ao que parece - a favorecer uma evolução da Igreja.

Por fim, venceu aquele cardeal que ao jornal Il Fatto Quotidiano havia previsto ou esperado "um papa extra europeu, fora dos grupos de interesse da Cúria, um homem de centro, razoável e aberto, que não se feche em um monólogo". Deste ponto será possível recomeçar.

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