Il Cavaliere Nero

Que ninguém se surpreenda se Berlusconi evocar em sua defesa a prática de depravação dos Césares

SÉRGIO AUGUSTO,

19 de fevereiro de 2011 | 15h07

A imagem é de cinco dias atrás: desabado sobre o banco traseiro do carro, olhar mortiço, ricto cadavérico, Silvio Berlusconi parecia ter trocado sua fachada faceira pela máscara mortuária de Benito Mussolini. O Cavaliere acusara o golpe: minutos antes, a juíza Cristina Di Censo atribuíra ao Tribunal de Milão competência territorial para julgá-lo por prostituição de menor e extorsão, e escolhera um trio de juízas (Carmen D’Elia, Orsola De Cristofaro e Giulia Turri) para apreciar e dar seu veredicto sobre o Rubygate a partir de 6 de abril.

Se Deus escreve certo por linhas tortas, certos criminosos só acabam no lugar certo por caminhos tortos. Al Capone roubou, matou, fez o diabo, mas só conseguiram trancafiá-lo numa penitenciária por lesar o imposto de renda. O primeiro-ministro italiano abusou do poder, do fisco, da propriedade privada, da coisa pública, do sistema bancário, mas só depois que abusou do sexo virou um caso de polícia promissor.

 

Há 17 anos dominando a política italiana, no dorso de um império telejornalístico, Berlusconi monopolizou a informação, congelou a oposição, comprou políticos, magistrados e jornalistas, numa escalada de impunes exorbitâncias que culminou com a troca de favores sexuais por cargos na administração pública. Concursadas nos bunga-bungas patrocinados pelo Cavaliere, diversas moças de vida airada arrumaram emprego no governo e no partido do premier. A maioria, porém, se satisfazia com o generoso michê pago pelo sultão do Palácio Chigi. Só a dançarina marroquina Karina “Ruby” Mahroug embolsou € 50 mil pelos serviços que prestou em sua primeira orgia, em março de 2010. Inebriado pela soberba, Berlusconi descurou de um detalhe crucial: Ruby tinha então apenas 17 anos. Por essa brecha, a Justiça entrou.

 

Agora o bufão cai, festejou-se dentro e fora da Itália. Steven Colbert, um dos mais populares gozadores políticos da televisão americana, não resistiu à tentação de acoplar o revertério de terça-feira à onda de protestos que nas últimas semanas agitou a Tunísia, o Egito e mais oito ditaduras vizinhas. “A onda acaba de atingir o país mais atrasado e corrupto do Oriente Médio”, anunciou Colbert em seu show noturno, dando uma pausa para identificá-lo: “...a Itália”. Se a Itália tivesse mantido a Líbia e a Etiópia em seus domínios, a piada seria irreprochável até do ponto de vista geopolítico.

Dói ver o berço da Renascença, a terra de tantos gênios e tantas belezas, transformada em objeto de chacota mundial, confundida com um duce tão ou mais indecoroso que o outro. A ressalva de que, ao contrário dos sátrapas do Oriente Médio, Berlusconi foi eleito e reeleito (duas vezes!) pelo voto popular é válida, mas discutível. Jamais será plena (ou perto disso) uma democracia cujas eleições são previamente constrangidas pelo voto de lista e conduzidas sob o controle midiático de uma família cujo patriarca é o maior interessado no resultado das urnas.

 

Há quase 30 anos o clã Berlusconi controla os três principais canais de televisão do país e também editoras, jornais e revistas (Mondadori, Il Giornale, etc). Sem contar a rede de televisão estatal (Rai), que o Cavaliere, abusando de seu mando na chancelaria, transformou num feudo do Força Itália, o partido de direita por ele fundado em 1994 e há quatro anos demagogicamente rebatizado de Povo da Liberdade. Os italianos não são cretinos, apenas mal informados. Não há como formar uma opinião pública objetiva e imparcial num país onde menos de 20% da população lê jornais.

Caradura e resiliente, Berlusconi resistiu bem até hoje ao combate da oposição, que, fragmentada, desunida e incompetente, perdeu a chance de derrubá-lo no Parlamento com um voto de desconfiança, em dezembro. Se ele, constrangido, antecipar-se ao Parlamento e entregar o cargo, todos os louros da vitória serão dos cidadãos que nas últimas semanas lotaram praças e ruas em toda a Itália, pressionando por sua saída, não da oposição institucionalizada. Mas constrangimento é uma palavra ausente do vocabulário berlusconiano.

Sua melhor (pouco importa se indigna) opção é continuar firme no trono, como sempre fez, na esperança de que o presidente Giorgio Napolitano não saia de sua letargia para convencer a maioria a dissolver o Congresso e convocar novas eleições, e as juízas de Milão considerem as provas apresentadas pela acusação insuficientes para condená-lo. Que ninguém se surpreenda se, em última instância, Berlusconi arvorar-se em legítimo representante da civilização romana, no último bastião dos Césares, invocando a seu favor o lastro de depravação de Augusto, Calígula, Nero & Cia. Augusto, não custa lembrar, também adorava menores e, patologicamente vaidoso, usava salto nas sandálias para parecer mais alto. Sem os seus sapatos especiais, Berlusconi não passa de 1,67 m.

 

Antes da audiência de 6 de abril, o “sugar daddy” de Ruby enfrentará uma pesada agenda forense. Ele ainda responde a quatro processos por fraude fiscal, apropriação indébita e corrupção (do advogado corporativo britânico David Mills, condenado a 4 anos e meio de xadrez por lavar dinheiro do grupo Fininvest, de propriedade de Berlusconi), e seus advogados parecem ter limpado o tacho de chicanas. Serão 28 dias de intensa batalha jurídica. Mesmo comprando magistrados, é bastante improvável que seu carisma e sua declinante popularidade resistam a tanta exposição negativa.

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