Imaginação política

Análise publicada originalmente no Estadão Noite

Fabrício H. Chagas Bastos*, O Estado de S. Paulo

14 de março de 2015 | 07h00

Uma das maiores dádivas que o ser humano possui é sua capacidade de imaginar e criar. Tão valorizada é a habilidade que o rumo da industrialização partiu de um regime intensivo em mão de obra em seus primórdios para outro no qual informação e capacidade de inovar são as vigas mestras. Se na economia o recurso é supervalorizado, nos meandros da política nem tanto, dado que esta se aferra à sobrevivência e, por muita vezes, repele qualquer recurso que seja estranho às suas tradições.

Em meio a preocupações persistentes com a situação política e econômica do Brasil, em um final de semana que promete ser marcado pela volta das manifestações de rua pelo País, cabe um exercício de imaginação política, contrafactual, ou como preferem os mais críticos, de futurologia (controlada, é claro, mas de futurologia).

Deixadas de lado as possibilidades estapafúrdias de golpe ou intervenção, concentremo-nos no que podem ser as soluções para a carregada atmosfera que assola o ambiente político do País nos últimos 15 dias. As duas brevíssimas ideias que apresento prezam mais pela precisão analítica do que por alguma vontade enrustida.

Antes, convém montar o cenário, uma vez que os atores são conhecidos. Em duas semanas a lista de Janot foi divulgada arrastando boa parte do PP e do PMDB para o banho que a Lava Jato tem proporcionado. Os presidentes do Senado e da Câmara, Renan Calheiros e Eduardo Cunha (ilustres figuras da lista) impuseram mais derrotas ao Planalto e acossaram os emissários do governo sem dó nem piedade - diz-se que Renan assentou barricadas como oposicionista. Manifestações contra a corrupção na Petrobrás e pedindo o impeachment de Dilma foram organizadas. O dólar subiu vertiginosamente, batendo, no momento que acabo este texto, a casa dos R$ 3,26. Lula continua estranhamente calado. A oposição timidamente começa a calcular os custos de utilizar o capital político que nunca teve ao longo dos governos petistas - e angariou nas últimas eleições.

Combalida e com um governo precocemente envelhecido, a afilhada de Lula poderia ser instada a se apear do poder voluntariamente. Dilma foi eleita como continuidade do projeto político do PT que começou a ser implantado em 2003. As ideias que sustentam o modelo, um ganha-ganha que atende aos mais pobres e aos mais ricos, ao mesmo tempo, perderam vigor quando a classe média gritou em junho de 2013 e promoveu uma renhida disputa nas eleições de 2014. Institucionalmente o modelo se esgotou quando a aliança que mantém o presidencialismo de coalizão chocou-se contra o muro, com um Congresso que cada vez mais desidrata a maioria do governo e lhe impõe revezes em projetos importante. Os interesses do governo emperram numa inabilidade crônica de Dilma e sua equipe.

Ao considerarmos essas três variáveis e ainda o sentimento de sobrevivência inerente ao sistema político, não seria impossível pensar numa Dilma que renuncia em favor do projeto petista, não de sua continuidade imediata, mas mirando a possibilidade de reformá-lo e reassumi-lo em 2018 (com uma possível, mas improvável, volta de Lula). Com a saída de Dilma, o PT poderia declarar-se independente em um governo de Michel Temer, corrigir seus rumos e aplacar as divisões internas, saindo do fogo cruzado e garantindo fôlego para os anos adiante.

O segundo devaneio é mais realista, mas talvez tanto menos plausível. Uma ruptura entre Dilma e Lula (que se diz silenciosa desde 2012) seria uma estratégia de contenção da crise. Arrastar o ex-presidente para o centro do furacão aplacaria os ânimos do Congresso (ao trazer seu capital político para a negociação) e de quebra imporia às forças políticas centrípetas da oposição (Aloysio Nunes, Aécio Neves, e também FHC) a embarcarem num pacto de governabilidade direto entre as altas cúpulas dos maiores partidos brasileiros, em nome da estabilização e destravamento do sistema - algo inédito em trinta anos de Nova República.

Quando a presidência de Collor foi interrompida, o choque no imaginário coletivo foi intenso, mas como não havia memória democrática, não produziu grandes traumas. Passadas duas décadas, com a carga de transformações que o País viveu, uma nova interrupção forçada pelo próprio sistema político seria traumática, espalharia ainda mais frustração. Um dos grandes riscos que o Brasil corre, com todo o terremoto institucional que começamos a viver, é que sigamos o modelo italiano de reforma política, que internalizou os problemas críticos que o afetavam e tornou-se muito mais restritivo à participação popular - um distanciamento legal do povo - e produziu figuras da estirpe de um Berlusconi. De fato, é preferível um pato manco a um pato morto.

* FABRÍCIO H. CHAGAS BASTOS É PROFESSOR DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS CONTEMPORÂNEAS DA UFGD 

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