Imenso desperdício

No início desta semana, o inspetor-geral do Programa de Recuperação de Ativos Problemáticos, isto é, o fundo de ajuda ao setor bancário, divulgou seu relatório sobre a operação de salvamento da seguradora American International Group, AIG, em 2008. Em essência, o documento afirma que as autoridades não fizeram nenhuma tentativa concreta de obter concessões dos banqueiros, embora estes tenham recebido enormes benefícios. O que se perdeu foi mais do que dinheiro. Adotando uma medida que, na realidade, acabou sendo um presente de vários bilhões de dólares a Wall Street, as autoridades comprometeram sua própria credibilidade - e colocaram em risco a economia como um todo.

Paul Krugman*, O Estadao de S.Paulo

21 de novembro de 2009 | 00h00

A operação que salvou a AIG fazia parte do seguinte esquema: durante a crise financeira, altos funcionários do governo - mais especificamente Timothy Geithner, que era presidente do Fed de Nova York e agora é secretário do Tesouro - evitaram fazer qualquer coisa que pudesse atrapalhar Wall Street. E o paradoxo triste é que esta estratégia baseada na cautela acabou prejudicando as perspectivas de recuperação econômica.

A tentativa de sanear a economia quebrada não está absolutamente concluída - aliás, concluí-la tornou-se quase impossível agora que o público perdeu a fé nos esforços do governo, que vê como verdadeiros presentes às mesmas entidades que nos colocaram neste caos.

Quanto ao caso da AIG, durante os anos da bolha, muitas financeiras criaram uma ilusão de vigor financeiro comprando "credit-default swaps" (contratos de troca que funcionam como seguro contra o calote) da AIG - basicamente, apólices de seguro com as quais a AIG prometia cobrir a diferença se os tomadores não pudessem pagar suas dívidas. Não passava de uma ilusão, porque a seguradora não tinha dinheiro suficiente para cumprir suas promessas, caso a situação se complicasse. E, evidentemente, a situação se complicou.

Portanto, para que proteger os banqueiros das consequências dos seus erros? Quando ficou claro que a AIG não tinha como pagar, o sistema financeiro mundial já estava à beira do colapso e as autoridades julgaram - provavelmente de maneira correta - que, se permitissem o colapso da AIG, o sistema financeiro mundial faliria com ela. Então optaram pela estatização de fato da AIG; as promessas desta tornaram-se responsabilidade dos contribuintes.

Mas haveria alguma outra maneira de limitar esta responsabilidade? Os bancos sofreriam prejuízos imensos se o governo permitisse o colapso da AIG. Portanto, julgou que a coisa mais correta seria que os bancos arcassem com parte do custo do salvamento aceitando uma redução dos montantes que a AIG lhes devia. Na realidade, o governo pediu que eles fizessem isso. Mas os bancos recusaram - e a história acabou aí. Os contribuintes não só tiveram de honrar as promessas, como pagaram integralmente.

A coisa poderia ter sido diferente? Segundo alguns comentaristas, as autoridades não tinham como obrigar os bancos a aceitar uma redução: ou deixavam que a AIG entrasse em colapso, e não estavam dispostas a fazê-lo, ou teriam de honrar os contratos da seguradora.

Mas esta concepção Wall Street é muito ingênua. As grandes financeiras constituem um pequeno clube, com o interesse comum de dar sustentação ao sistema; desde os tempos de JP Morgan, é normal, em épocas de crise, pedir às grandes participantes do mercado que renunciem aos lucros, para o bem comum do setor. Em 1998, foi um consórcio de bancos privados - e não o governo - que salvou o hedge-fund Long Term Capital Management.

Além disso, as grandes financeiras mantêm relações antigas com o governo e entre si, e têm de pagar um preço quando agem de maneira egoísta em tempos de crise. O Bear Stearns, atraiu a hostilidade do seu clube recusando-se a participar da operação de salvamento naquele ano, e acredita-se que esta hostilidade foi um os principais fatores do seu fim, dez anos depois.

Portanto, as autoridades poderiam ter pedido aos bancos que oferecessem uma proposta melhor, pelo seu próprio bem, e ameaçar apontar e recriminar os que se recusassem. Foi sua a opção de não fazer isto, assim como foi sua escolha não pressionar para obter um controle maior dos bancos salvos do colapso no início de 2009.

Pois a economia continua correndo graves riscos e precisa de uma ajuda muito maior do governo. Os bancos continuam fracos; precisamos desesperadamente de mais ajuda do governo para o setor financeiro. Mas se tentarmos explicar a situação aos eleitores, sua resposta será: "De modo algum. O governo acabará dando mais dinheiro a Wall Street".

Esta é portanto a tragédia do fracasso da ajuda: as autoridades, talvez influenciadas pelo fato de terem perdido tanto tempo com os bancos, esqueceram-se de que, para governar efetivamente, é preciso assegurar a confiança das pessoas. E por terem tratado o setor financeiro - que nos jogou neste caos - com luvas de pelica, destruíram esta confiança.

* Paul Krugman é prêmio Nobel de Economia

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