Implicações de um futuro político incerto

Artigo publicado originalmente no Estadão Noite

Marco Antonio Carvalho Teixeira*, O Estado de S. Paulo

26 Agosto 2015 | 22h00

Com a saída de Michel Temer da articulação governamental no Legislativo, de uma forma por ele mesmo batizada de devagarinho, e com a entrada da neo-oposicionista Marta Suplicy no PMDB, o governo parece receber um sinal inequívoco de que em novembro os peemedebistas devem discutir no congresso do partido ao menos dois destinos: abandonar o Planalto e entregar os cargos mirando o sentimento antipetista que pode caracterizar as eleições de 2016, ou, então, se declarar independente, mantendo ministérios, e se comportando ao sabor da conjuntura e dos interesses de seus caciques regionais como sempre fizeram, o que poderá ser o melhor dos cenários para o governo Dilma na busca incessante por sobrevida até 2018. 

Todavia, esse não é o único risco imediato de maior enfraquecimento do governo Dilma ou mesmo de ameaça a sua continuidade. Para além do imbróglio no TCU, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por decisão da maioria de seus membros, já autorizou a reabertura de uma ação impetrada pela oposição (PSDB) cujo objetivo é investigar um suposto abuso de poder econômico na campanha petista de 2014, além de lançar suspeitas sobre o recebimento de recursos drenados do esquema de corrupção na Petrobrás. Talvez essa seja a ameaça mais concreta ao afastamento da presidente e do seu vice, uma vez que a chapa poderia ser impugnada. No limite, uma condenação da prestação de contas abriria caminho para uma nova eleição, algo desejado, sobretudo, por Aécio Neves, mas não necessariamente por outras lideranças tucanas que preferem esperar pelo calendário eleitoral de 2018. Entretanto, é bom lembrar que em caso de uma eventual condenação do TSE, cabe recurso ao próprio órgão ou mesmo ao STF, o que pode prolongar uma batalha cujo tempo para a decisão definitiva é incerto.

Num momento em que os indicadores econômicos se deterioram rapidamente, que o governo amarga baixíssimos índices de credibilidade e a sociedade demonstra enorme desconfiança na classe política de maneira geral, o máximo que a oposição apresenta à sociedade são nomes alternativos para a sucessão do atual governo, seja lá em que momento for. Isso é pouco. Falta um projeto alternativo que enfrente a crise econômica e que aponte para outra perspectiva de relação política, algo para além da retórica moralista e que é essencial para restabelecer confiança no ambiente político por parte da sociedade e do mercado. 

Em tempos de Lava Jato e de CPIs, nada é estável e nenhuma estratégia política de poder está imune a surpresas. Os trabalhos desenvolvidos pela CPI da Petrobrás, que em tese deveriam representar um ambiente de maior risco para o governo, acabaram ricocheteando justamente em Aécio Neves e jogando holofotes sobre um enigma que não é novo: a chamada Lista de Furnas. Isso pode enfraquecer politicamente o projeto de poder do senador mineiro no PSDB e, ainda, fragilizar rapidamente o seu discurso moralizador junto a sociedade. Entretanto, resta saber se as dúvidas suscitadas pela acareação entre Alberto Youssef e Paulo Roberto Costa na CPI da Petrobrás serão suficientes para abrir um novo foco de investigação quer seja na Operação Lava Jato ou mesmo nas CPIs em curso. 

O que será de nosso futuro político a curto prazo? Nenhuma bola de cristal é capaz de revelar. Essa dúvida joga a favor da continuidade de Dilma como já percebido por grandes grupos econômicos que, na incerteza do amanhã, preferem manter o atual governo e contribuir para diminuir a temperatura da crise política, algo que consideram essencial para retomar a confiança dos investidores e reaquecer a economia.

* Marco Antonio Carvalho Teixeira é professor de Ciência Política no curso de Administração Pública da FGVSP


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