IMPRESSÕES DE UM INTRUSO NO VATICANO

Repórter passeia pelos palácios, jardins e ruas de paralelepípedo do menor Estado do mundo

CIDADE DO VATICANO , O Estado de S.Paulo

17 de março de 2013 | 02h03

De um lado do muro, a Roma caótica e barulhenta. De outro, na Cidade do Vaticano, um mundo à parte, como um retorno ao passado, com ruas silenciosas e ainda de pedra, pessoas caminhando a passos lentos e uma atmosfera de pompa. Mas, nesses dias, somou-se outro sentimento dentro da Santa Sé: o alívio diante do fim das incertezas de não se ter um papa.

A reportagem do Estado foi a única a entrar nos corredores mais privados da Cidade do Vaticano, de seu polêmico banco, visitou os jardins onde Bento XVI vai poder desfrutar sua aposentadoria e chegou até as portas da Casa Santa Marta, onde os cardeais estão hospedados.

A reportagem teve na última sexta-feira ajuda de religiosos que alegaram à segurança que o repórter fazia parte do grupo de funcionários de um cardeal. Não foi pedida credencial, nem documento, nem passaporte.

Fechadas ao mundo, as ruas parecem sair de cenas de filmes de época, inclusive pelas roupas dos "moradores". Não faltam nem as saudações de cada um dos soldados da Guarda Suíça a quem passa por eles, principalmente no caso dos cardeais, espécies de príncipes do Estado do Vaticano, o menor do mundo.

Não distante da entrada lateral, uma rua de paralelepípedos leva à farmácia, estabelecida em 1874. Ao lado, uma segunda loja com cosméticos de marcas de luxo, em um forte contraste com a nova imagem do papa franciscano que optou, no lugar de uma cruz de ouro, por uma cruz de ferro. Na porta da loja, publicidades de algumas marcas incitam a violação a alguns dos pecados capitais, com mulheres sensuais nas fotos e homens com olhares de segundas intenções.

Essas não são as únicas lojas do local. A Cidade do Vaticano ainda conta com um minishopping center, com lojas de roupas e de produtos básicos, todos sem os impostos cobrados na Itália. Por ser um país soberano, o Vaticano importa bens de outros mercados, sem taxas.

Subindo a rua que contorna a Basílica de São Pedro, uma torre medieval é sede de uma das instituições mais polêmicas do local: o Banco do Vaticano. Usada já como prisão e mais tarde como defesa do local, a torre abriga hoje uma das instituições financeiras mais opacas do mundo. Mas basta uma entrada no local para se deparar com um cenário bem diferente: corredores abertos e escritórios sem portas, encostados nas frias pedras da torre. O clima lembra mais um seminário que uma instituição financeira.

Alguns passos adiante, a entrada da secretaria, o verdadeiro governo do Vaticano, com corredores tomados por mármore e dezenas de oficiais da Guarda Suíça e do serviço de inteligência caminhando. Portas de madeira camuflam elevadores. O Estado pegou um deles, todo de madeira e conduzido por ascensorista vestido com terno impecável.

Três andares depois, a porta se abre e dá acesso ao pátio central do palácio apostólico, o coração da cidade. Naquele momento, o papa acabava de se reunir com seus príncipes, os 115 cardeais. "É alguém extraordinário. Será um grande papa. Há uma sensação de felicidade", disse o cardeal francês Jean Louis Tauran, que teve a honra de fazer o anúncio Habemus papam.

Numa das saídas do pátio, um longo corredor conduz à parte de trás da Basílica. Ali, outra rua leva para um morro, onde estão verdadeiros palacetes, com jardins elaborados por artistas. Alguns são moradias de cardeais, outros, usados pela administração.

Atrás de todos eles, um caminho estreito leva a um jardim cuidadosamente trabalhado e quase mantido em sigilo. Trata-se do local que servirá de espaço para as caminhadas de Bento XVI quando ele passar a viver na Cidade do Vaticano, nos próximos meses. Em nossa visita, jardineiros aparavam flores, entre limoeiros e outras árvores. A residência onde ele permanecerá fica a dois passos dali. Bento XVI prometeu ficar "escondido do mundo", mas bastará uma caminhada de cinco minutos para esbarrar com todos os demais cardeais.

De fato, não longe dali, o Estado passou pela porta da Casa Santa Marta, onde, desde o início da semana, os cardeais são mantidos.

Com uma avalanche de crises, especulações, acusações, denúncias e a primeira renúncia em 600 anos, o clima dentro da Cidade do Vaticano é de que parte do desafio começou a ser lidado com a escolha de um novo papa. Mas, como o próprio Francisco alertou, a instituição terá de caminhar se quiser de fato deixar para trás sua crise. E o passo terá de ser mais rápido que o dos cardeais que penam para subir algumas das ladeiras da cidade escondida por muros. / JAMIL CHADE

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