Incêndio deixa ao menos 230 mortos em boate no Rio Grande do Sul

Um incêndio deixou ao menos 232 mortos e mais de cem feridos, em sua maioria jovens, durante um show em uma casa noturna na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, na madrugada deste domingo, disseram autoridades locais.

ANA FLOR, Reuters

27 de janeiro de 2013 | 15h30

A maioria das mortes foi causada por asfixia por fumaça tóxica e pisoteamento, informaram as autoridades. Inicialmente, as autoridades afirmaram que havia 245 pessoas mortas na tragédia.

Segundo o coronel Oscar Moiano, comandante da Defesa Civil do Rio Grande do Sul, além das 232 pessoas que morreram, outras 117 ficaram feridas. De acordo com a Defesa Civil, ainda não foi possível precisar o número exato de pessoas que estavam na boate no momento do incêndio, mas segundo o coronel Moiano, eram mais de mil.

O incêndio na boate Kiss começou por volta das 2h30 da madrugada deste domingo, segundo o major Gerson da Rosa Ferreira, da Polícia Militar gaúcha. O fogo teria começado depois que um dos integrantes da banda acionou um sinalizador. A festa reunia, principalmente, estudantes universitários da cidade.

De acordo com uma das sobreviventes e o comandante do Corpo de Bombeiros do Estado, seguranças da boate teriam impedido a saída das pessoas no momento do incêndio, para evitar que clientes saíssem sem pagar a conta. O local também teria só uma porta de saída.

O fogo começou, de acordo com a delegada Luíza Sousa, da 2a Delegacia de Polícia Civil, quando um dos integrantes da banda que fazia um show no local, chamada Gurizada Fandangueira, acendeu um sinalizador dentro do local.

A faísca desse sinalizador tocou o teto, que tinha um revestimento de espuma e isopor. "O fogo espalhou-se em segundos", disse a delegada à Reuters.

Segundo o coronel Guido Pedroso de Melo, comandante do Corpo de Bombeiros do Estado, seguranças da boate bloquearam a saída do local exigindo que os clientes pagassem a conta antes de sair.

"A segurança trancou a saída das pessoas que estavam no local, não permitindo que saíssem rapidamente. Isso causou pânico e tumulto... Vi as pessoas amontoadas e mortas próximo da saída", acrescentou.

"Noventa por cento das pessoas morreram asfixiadas. Nos deparamos com uma barreira de pessoas mortas na saída do prédio. Tivemos que abrir caminho para chegar a outras pessoas dentro do prédio."

Sobreviventes da tragédia também disseram que alguns seguranças bloquearam as saídas da boate, exigindo o pagamento das comandas para liberar a saída.

"Não por parte de todos, alguns estavam fazendo barreira... Falaram que a gente só ia sair quando pagasse a comanda. Só liberaram a gente quando viram o fogo no teto", disse a sobrevivente Luciene Louzeiro à TV Globo.

EXCESSO DE GENTE

Sobre as condições do local onde ocorreu a tragédia, o major Cléberson Bastianello, comandante do Batalhão de Operações Especiais, evitou fazer comentários.

Ao ser questionado sobre o possível vencimento do alvará para funcionamento ele disse: "Qualquer informação nesse sentido (validade do alvará de funcionamento) é temerária. As causas do acidente, a situação legal do estabelecimento, vai ser tudo descoberto na investigação", disse.

Segundo o comandante do Corpo de Bombeiros do Estado, coronel Guido Pedroso de Melo, a boate tinha alvará vencido, mas em processo de renovação estava em andamento. Havia no local mais de 1.000 pessoas, capacidade máxima permitida.

Os primeiros atendimentos às vítimas foram dados no estacionamento de um supermercado ao lado da boate Kiss, que fica no centro da cidade.

Homens com picaretas tentavam quebrar as paredes para ter acesso ao local e resgatar as vítimas, durante a madrugada.

Segundo a Brigada Militar, já não havia mais corpos de vítimas no local do incêndio no fim da manhã.

O major Ilvair Vianna, diretor do Hospital da Brigada Militar de Santa Maria, informou que chegaram mais de duas dúzias de feridos ao hospital.

"O que deixou a situação mais difícil parece que foi a saída. Tudo está meio confuso no momento. Ainda bem que a infraestrutura daqui é boa, conseguimos dar pronto socorro a muitas das vítimas", disse ele no início da manhã à Reuters.

Parentes das vítimas foram levados para fazer a identificação em um centro esportivo da cidade onde os corpos foram reunidos. No local, familiares ainda estavam em choque, e alguns voluntários que foram prestar apoio não conseguiam controlar o choro.

"A partir de agora passaremos a liberar o acesso aos familiares, para o ginásio", disse o major Bastianello, acrescentando que a maior parte das vítimas identificadas até agora foi de homens, que portavam documentos.

O governador do Estado, Tarso Genro (PT), está na cidade a cerca de 350 quilômetros da capital Porto Alegre e com cerca de 260 mil habitantes.

A presidente Dilma Rousseff, que estava no Chile, cancelou os compromissos no país e antecipou o retorno ao Brasil. Dilma chegou a Santa Maria no início da tarde, visitou feridos em um hospital e depois foi ao local onde estão sendo identificados os corpos e onde estão os familiares.

"Nesse momento de tristeza nós estamos juntos e necessariamente iremos superar, e mantendo a tristeza", disse, chorando a presidente em entrevista no Chile antes de embarcar para o Brasil.

O prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB), decretou 30 dias de luto oficial por conta da tragédia, que já vem sendo apontado como a maior da história do Rio Grande.

(Com reportagem de Guillermo Parra-Bernal, Esteban Israel, Bruno Federowski e Eduardo Simões em São Paulo)

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