Incertezas pedem 'cautela' à política monetária, diz BC

O Banco Central piorou seus cenários de inflação para 2013 e 2014, segundo a ata da última reunião do Copom, e defendeu que é preciso "cautela" na condução da política monetária diante das incertezas que permanecem, tornando difícil a formação de um consenso imediato sobre se o BC irá elevar ou não o juro básico já em abril.

TIAGO PARIZ, Reuters

14 de março de 2013 | 15h59

Na ata do Comitê de Política Monetária divulgada nesta quinta-feira, o BC chamou a atenção para a "maior dispersão" dos aumentos de preços recentemente, entre outros fatores que contribuem para que a inflação mostre resistência.

"Embora essa dinâmica desfavorável possa não representar um fenômeno temporário, mas uma eventual acomodação da inflação em patamar mais elevado, o Comitê pondera que incertezas remanescentes --de origem externa e interna-- cercam o cenário prospectivo e recomendam que a política monetária deva ser administrada com cautela", afirmou o BC no documento.

Na semana passada, o Copom decidiu manter a Selic na mínima histórica de 7,25 por cento ao ano pela terceira vez seguida, mas deixou a porta aberta para elevá-la, ao retirar a expressão "por um período de tempo suficientemente prolongado" ao se referir às condições monetárias.

A divulgação da ata mostrou que pelos cenários de referência e de mercado, as estimativas de inflação de 2013 e de 2014 subiram e se encontram acima do centro da meta, de 4,5 por cento pelo IPCA. Na ata de janeiro, a autoridade monetária já havia elevado suas contas para a inflação, que também estavam acima da meta.

"Para 2014, a projeção de inflação aumentou em relação ao valor considerado na reunião do Copom de janeiro e se encontra acima do valor central da meta, em ambos os cenários", acrescentou o BC. Na ata da reunião de janeiro o BC afirmava que as projeções estavam "ligeiramente acima" da meta.

Apesar de mostrarem algum arrefecimento nas últimas semanas, os preços continuam pressionados e existe a possibilidade a inflação medida pelo IPCA estourar o limite da meta --de 6,5 por cento-- em algum momento neste semestre. Em fevereiro, o índice acumulou alta de 6,31 por cento em 12 meses.

O BC também voltou a sublinhar os perigos da alta dos preços sobre o crescimento econômico e o emprego.

"Taxas de inflação elevadas subtraem o poder de compra de salários e de transferências, com repercussões negativas sobre a confiança e o consumo das famílias. Por conseguinte, taxas de inflação elevadas reduzem o potencial de crescimento da economia, bem como de geração de empregos e de renda."

Pela ata, o BC reafirmou que as decisões futuras de política monetária serão tomadas para "assegurar a convergência tempestiva da inflação para a trajetória de metas", mas continuou sem colocar um período para isso. A diretoria do BC já reconheceu que isso não deve ocorrer este ano.

LEITURAS DIFERENTES

Parte dos analistas e economistas consultados pela Reuters apontou para a linguagem relativamente amena do BC nesta ata, uma vez que esperavam sinalizações mais contundentes sobre o início do ciclo de aperto monetário.

"A ata soa mais ou menos 'dovish' para o que o mercado estava precificando", avaliou o economista-chefe para América Latina do ING, Gustavo Rangel.

"Eles estavam precificando uma alta de 0,25 ponto em abril, a ata mantém o tom neutro do comunicado (pós-reunião), sem um comprometimento com uma alta em abril... Não fecha a porta para uma alta em abril, mas torna a alta menos provável", acrescentou.

Para a economista-chefe da Tendências Consultoria, Alessandra Ribeiro, o BC mostrou que uma alta da Selic agora "pode não ser prudente diante dessas incertezas".

"Não tem sinal iminente para abril ou maio, ainda não dá para falar quando vai ser a alta, mas dá para falar que está mais preocupado com inflação", disse Alessandra.

Como já havia informado no comunicado divulgado imediatamente após a reunião da semana passada, o Copom reafirmou agora que "irá acompanhar a evolução do cenário macroeconômico até sua próxima reunião, para então definir os próximos passos na sua estratégia de política monetária".

O mercado de DI vinha precificando nos últimos dias maioria das apostas de alta da Selic de 0,25 ponto percentual em abril, quando o Copom se reúne novamente. Nesta manhã, após a divulgação da ata, o DI ainda embutia 52 por cento de chances de alta de uma alta de 0,25 ponto no mês que vem.

Para economista-chefe da Rosenberg & Associados, Thais Marzola Zara, "a ata desta reunião do Copom teve um tom muito mais preocupado com a inflação, como esperado".

A frase que fala que a política monetária deve ser conduzida com cautela, disse Thais em nota, "até deixa aberta uma porta para a manutenção dos juros em abril, mas pode ser entendida muito mais como uma justificativa sobre a decisão de março". Ela espera que a taxa básica suba a 7,50 por cento em abril, encerrando o ano a 8,50 por cento.

O economista Marcelo Carvalho, do BNP Paribas, considerou que os comentários da ata refletiram apenas o que o Copom tinha em mente antes de dados recentes de inflação. "Desde então, os números da inflação de fevereiro foram ruins e março não parece muito melhor até agora", disse Carvalho em nota, acrescentando que mantém a previsão de uma alta do juro básico em abril.

No geral, segundo a última pesquisa Focus do BC, publicada na segunda-feira, o mercado vê que a Selic fechará este ano a 8 por cento, com o início das altas em outubro. Para os Top 5 --instituições que mais acertam as estimativas--, no entanto, a alta começaria em maio.

CÂMBIO AJUDA

Ao mesmo tempo em que citou as incertezas sobre a inflação, o BC indicou que a recente desvalorização do dólar contribui para a contenção dos preços. "Importa destacar moderação recentemente observada na dinâmica dos preços de certos ativos reais e financeiros, que, na hipótese de permanecerem nos atuais níveis, constituirão importante força desinflacionária."

No documento, o Copom citou haver informações recentes que apontam para a retomada do investimento e para trajetória de expansão da atividade mais alinhada com o crescimento potencial. No quarto trimestre, a Formação Bruta de Capital Fixo, indicativo de investimento, cresceu pela primeira vez após quatro períodos consecutivos de queda.

(Reportagem adicional de Alonso Soto, em Brasília, e Silvio Cascione, em São Paulo)

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