Inclusão cultural também tem o seu papel

O processo de alfabetização dos alunos mais velhos será bem-sucedido quando o foco for menos o aprendizado de letra após letra e mais a inclusão desses meninos e meninas "em uma sociedade letrada", diz a professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Lucia Helena Alvarez Leite, doutora em Pedagogia e especializada em educação e movimentos sociais.

RIO, O Estado de S.Paulo

25 Março 2012 | 03h06

Em 2003, Lucia Helena participou do programa de alfabetização de alunos da 6.ª, 7.ª e 8.ª séries, com idade de 13 a 18 anos, da rede municipal de Belo Horizonte. O programa optou pelo funcionamento das turmas fora das escolas. "Repetir o que eles já estudaram anos a fio, naquela mesma sala de aula, não funciona. É a repetição do fracasso. Tirar desses lugares e levar para parques, teatros e centros culturais é importante para conectar esses alunos com a cultura juvenil. Essa conexão é o pulo do gato", diz Lucia Helena, com o cuidado de ressaltar que não tem meios para avaliar o programa de realfabetização do Rio.

Cultura. A professora é entusiasta do modelo que combina o trabalho de professores alfabetizadores com agentes culturais, jovens que ajudam na "mediação de dois mundos", o da escola e o dos alunos. "Ele têm a mesma linguagem", diz Lucia Helena.

No programa de Belo Horizonte, os alunos foram levados a atividades cotidianas que envolviam a leitura e a escrita, como comprar ingressos para o cinema, trocar correspondências, fazer fotos e escrever as legendas. Até uma coleção de papel de balas que traziam pequenos textos foi um instrumento para a alfabetização.

"Nós saímos das salas de aula com esses meninos. Eles se sentiam completamente excluídos do mundo letrado ou se negavam a aprender. Quando nós íamos ao teatro ou ao shopping, alguns diziam que não podiam entrar, porque seriam expulsos, não era lugar para eles", conta Lucia Helena.

Para a professora, uma mudança que pode fazer grande diferença na alfabetização dos estudantes que já estão em séries mais avançadas é "descobrir o que eles sabem" e não se concentrar nas deficiências. "Eles sabem muito, até mesmo a questão da língua", diz a professora. / L.N.L.

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