Inclusão social com responsabilidade, duas crenças complementares

Inclusão social com responsabilidade, duas crenças complementares

Artigo publicado originalmente no Estadão Noite

Carlos Pereira*, Especial para O Estado

07 de outubro de 2014 | 15h12

O recado das urnas foi claro: a maioria dos brasileiros deseja mudança, principalmente na gerência macroeconômica e na qualidade dos serviços públicos ofertados, mas com segurança e sem grandes riscos que os ameace a perder os ganhos de inclusão e proteção social já alcançados. Esses são dois conjuntos de crenças do eleitor, aparentemente contraditórios, mas que se complementam no Brasil. Por um lado, os eleitores se importam com controle inflacionário, crescimento econômico, higidez das contas públicas, marcas inexoráveis e legado dos governos Tucanos. Por outro lado, querem continuar partilhando do vigoroso aparato de proteção social que vem sendo implantado no Brasil desde a sua redemocratização, mas que ganhou escala e novas áreas de serviços nos governos Petistas.

Mas como compreender o que nos parece inexplicável? Desejo pela manutenção do que já foi alcançado em termos de inclusão social, o que requer gasto público; e desejo por segurança e responsabilidade macroeconômica, o que parece trazer riscos a esse projeto? Na busca de uma resposta, podemos encontrar pistas nas pesquisas de percepção do World Value Survey. Os cidadãos brasileiros apresentaram uma mudança drástica no seu sistema de crenças em dois períodos da democracia recente. De 1989 a 1993, a maioria dos brasileiros acreditava que seria de responsabilidade individual o provimento de suas necessidades e seu próprio sucesso. Curiosamente, de 2010 a 2014, essa responsabilidade passa a ser atribuída ao governo, com o aumento da expectativa de ofertas de serviços públicos.. Não é coincidência, portanto, o desempenho eleitoral do PT nesse último período, e ao mesmo tempo, as demandas por aperfeiçoamento nos serviços públicos ofertados claramente expressados nos protestos de junho de 2013.

Desde o plano Real, o eleitor brasileiro também já deu várias sinais de que é avesso a descontrole inflacionário e governos não atentos a essa crença tem enfrentado sucessivas punições do eleitor, com perda de popularidade. A maior prova disso foi revelado nas urnas ontem, com a queda de desempenho eleitoral da presidente Dilma Rousseff, por um lado, e a performance vitoriosa da agenda de reequilíbrio econômico capitaneada pelas duas alternativas de oposição, por outro lado. Ou seja, o eleitor, mais uma vez, expressou de forma inequívoca que não está disposto a abrir mão de responsabilidade na gestão macroeconômica e é intolerante ao descontrole inflacionário.

Portanto, dentre as duas alternativas que se apresentam ao eleitor no segundo turno das eleições presidenciais, vencerá o candidato que fizer a melhor leitura dessa realidade e demonstrar que políticas de inclusão social e responsabilidade macroeconômica são agendas compatíveis, logo passíveis de implementação de forma conjunta.

* CARLOS PEREIRA É PROFESSOR TITULAR DA ESCOLA BRASILEIRA DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E DE EMPRESAS - EBAPE DA FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS - FGV

Mais conteúdo sobre:
Estadão Noiteeleições

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.