Indígenas são impedidos de entrar no Riocentro

Cerca de 500 índios desistiram de tentar invadir cúpula após se deparar com 'muralha' de seguranças; secretário-geral interveio

MARCELO GOMES , SERGIO TORRES / RIO , O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2012 | 03h03

Uma espécie de muralha humana formada por 120 militares e policiais equipados com escudos, máscaras de gás, granadas e capacetes com viseiras impediu que um grupo de 500 indígenas, armados com arcos e flechas, lanças e bordunas, invadisse ontem de manhã a área de segurança do Riocentro, onde ocorria a cúpula de chefes de Estado da Rio+20.

Por muito pouco, não houve confronto. Os manifestantes, parecendo intimidados com o aparato, sentaram-se no chão, 5 metros antes de onde foi armada a barreira, a tentar ultrapassá-la.

Chefiados pelo cacique Raoni, da etnia caiapó, os indígenas desistiram da invasão, esboçada à revelia até dos movimentos sociais que apoiam a causa por eles defendida: o abandono do projeto de construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará.

Coube ao secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, apaziguar os ânimos dos indígenas, que vieram ao Rio de vários Estados das Regiões Norte, Centro-Oeste, Nordeste e Sul. Carvalho deixou o Riocentro para conversar com Raoni e outros líderes, em plena rua e sob chuva. Acabou os convencendo a deixar o local. Em troca, prometeu levar à cúpula uma comissão de 12 indígenas, que prepararia um documento com protestos e reivindicações.

A manifestação na área próxima ao Riocentro foi planejada em detalhes por lideranças dos movimentos sociais reunidas nos últimos dias na Cúpula dos Povos, evento paralelo à Rio+20 realizado no Aterro do Flamengo (zona sul do Rio).

As reivindicações do protesto deveriam incluir o projeto da Prefeitura do Rio de remover os cerca de 4 mil moradores da favela da Vila Autódromo, vizinha ao Riocentro. No terreno, seriam erguidas edificações para os Jogos Olímpicos de 2016.

Mobilização. Na noite de segunda, para burlar os bloqueios militares que seriam montados a partir da madrugada de ontem ao redor do Riocentro, cerca de 300 manifestantes foram até a favela da Vila Autódromo, onde passaram a noite preparando faixas e cartazes de protesto contra a remoção da comunidade.

Os demais participantes foram chegando no decorrer da manhã. Às 10 horas, havia cerca de 5 mil manifestantes à espera da ordem do comando de iniciar a passeata até o Riocentro. Como a ordem demorou, os indígenas se irritaram e partiram em direção ao Riocentro.

"Não tem mais conversa, vocês estão enrolando, vamos invadir a Rio+20", anunciou às 10h30 o chefe terena Vanio Itaqueti, de Mato Grosso do Sul.

Para desespero dos líderes, os manifestantes não ouviram os apelos para que retrocedessem.

Os indígenas seguiram diretamente para o ponto de bloqueio, o que levou os comandantes a mandarem os soldados das tropas de choque do Exército e da PM vestir as máscaras contra gás e adotar posição de combate. Helicópteros passaram a voar sobre o local. Um blindado da PM foi posicionado junto às tropas, para atuar caso houvesse um enfrentamento entre os agentes de segurança e os manifestantes.

Apesar da ruptura entre indígenas e movimentos sociais, todos os manifestantes acompanharam a caminhada, só parando quando os liderados por Raoni hesitaram em tentar romper a barreira, definida por uma militante da Via Campesina como "o paredão da morte".

Enviado pela prefeitura do Rio para tentar organizar os protestos e o trânsito da região, o secretário municipal de Conservação, Carlos Roberto Osório, desistiu de tentar um entendimento assim que os indígenas decidiram pela manifestação isolada. Osório chegou a orientar os carros presos em meio à confusão, como se fosse uma guarda de trânsito. "O combinado era que o ato não passaria do autódromo. Isso foi desrespeitado. Mas uma manifestação é sempre imprevisível. Esperamos que (o ato) seja pacífico. A prefeitura só controla o trânsito", afirmou.

Após o entendimento com Raoni, Carvalho qualificou os indígenas como "pessoas de luta". "São gente séria que reivindica, gente que luta por seus direitos. Estou muito bem no meio deles", afirmou o secretário-geral.

Reivindicações. À noite, os índios concluíram o texto que será entregue a Carvalho. Entre as propostas estão a proteção dos direitos territoriais indígenas, o fim da impunidade dos assassinos e perseguidores das lideranças indígenas e melhora das condições de saúde. / FÁBIO GRELLET

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