Indonésia busca elevar sua produção científica

O gráfico de produção do conhecimento sobre a biodiversidade marinha parece estar errado. A região mais estudada pelos cientistas é a Grande Barreira de Corais da Austrália, seguida pelo Caribe. Enquanto que a Indonésia, país com a maior área e a maior biodiversidade de recifes de coral do mundo, aparece apenas em terceiro lugar.

, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2011 | 00h00

"As estatísticas científicas não combinam com as estatísticas de biodiversidade", diz o pesquisador Paul Barber, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, principal responsável pela criação do Centro de Pesquisas sobre Biodiversidade da Indonésia (IBRC), no ano passado, em Bali.

Não que a Grande Barreira e o Caribe devessem ser menos estudados, diz Barber. É a Indonésia que está atrasada - e muito - no seu esforço de pesquisa, deixando a maior biodiversidade marinha do planeta desguarnecida do conhecimento científico necessário para a sua conservação. "É como se ninguém estivesse estudando a Amazônia no Brasil", compara a bióloga Nancy Knowlton, do Instituto Smithsonian.

Entre 1992 e 2005, para se ter uma ideia, 669 estudos foram publicados sobre a Grande Barreira de Corais da Austrália nas cinco principais revistas internacionais de ciências marinhas. Sobre o Caribe, foram 376. E sobre a Indonésia, apenas 46.

"A capacidade da Indonésia de produzir ciência é extremamente limitada, tanto em quantidade quanto qualidade", reconhece Ngurah Mahardika, professor e pesquisador de microbiologia da Universidade Udayana, uma das três instituições locais parceiras do IBRC. As outras são as Universidades Diponegoro e Negeri Papua. Juntas, num período de mais de 40 anos (1968-2009), essas três instituições publicaram 646 trabalhos em revistas científicas indexadas - incluindo todas as áreas do conhecimento. A UCLA, sozinha, publicou mais de 50 mil.

Reação. Com a criação do IBRC, Barber espera diminuir um pouco esse abismo de conhecimento, contribuindo não só para a conservação ambiental como também para o desenvolvimento socioeconômico da Indonésia. O centro oferece cursos e infraestrutura laboratorial para o treinamento de alunos e de professores em técnicas de biologia molecular.

"É o tipo de capacitação que não poderíamos obter em nenhum lugar da Indonésia, simplesmente porque não há pessoas capacitadas para ensinar essas técnicas aqui", diz a coordenadora assistente do IBRC, Dita Cahyani. "Outros laboratórios até têm os equipamentos, mas não o conhecimento necessário para aplicá-los ao estudo da biodiversidade e da conservação."

Para o coordenador de programas do centro, Aji Wahyu Anggoro, os benefícios vão muito além da ciência. "Acredito que a educação é o melhor caminho para melhorar a qualidade de vida de um país", diz o jovem pesquisador, confiante.

"Talvez os benefícios imediatos não pareçam muito significativos, mas há muitos benefícios indiretos que são ainda mais importantes", argumenta Muhammad Erdi Lazuardi, da ONG Conservação Internacional e aluno do IBRC. Segundo ele, é importante que os indonésios sejam capazes de produzir seus próprios trabalhos, até como forma de fomentar o orgulho nacional e a valorização dos recursos naturais do país. "Hoje é tudo produzido por estrangeiros", diz.

A baixa produção científica sobre os recifes da Indonésia - até mesmo por parte de estrangeiros - tem várias razões. Algumas políticas, relacionadas à dificuldade de obtenção de licenças. Outras logísticas e institucionais, ligadas à dificuldade de acesso, infraestrutura precária e falta de recursos humanos. Muito mais fácil fazer pesquisa na Austrália, na Flórida ou nas Bahamas.

Segundo Mahardika, há também uma questão cultural. "Eu consigo dinheiro para de instituições estrangeiras para fazer pesquisa, mas não do governo da Indonésia. Aqui, tradicionalmente, só se financia pesquisa aplicada." A pesquisa da biodiversidade é vista como algo muito básico, apesar de suas implicações para a conservação de recursos naturais essenciais para o turismo e a pesca no país. A Indonésia tem mais de 51 mil quilômetros quadrados de recifes de coral, uma área do tamanho do Rio Grande do Norte. "As pessoas ainda não enxergam a importância da conservação. Mas vão enxergar", aposta Mahardika.

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