Indústria atrai mais capital estrangeiro

Investimento externo no setor representa 44,3% do total

Fabio Graner, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

18 Dezembro 2009 | 00h00

Apesar do forte impacto negativo da crise global na indústria brasileira, a participação dos investimentos estrangeiros diretos (IED) no setor industrial aumentou significativamente este ano. Dados do Banco Central mostram que, de janeiro a novembro de 2009, o IED para a indústria representou 44,3% do total de US$ 25,1 bilhões de ingressos brutos de investimento externo. Em igual período do ano passado, o investimento na indústria representou 33,6% dos ingressos totais no Brasil.

A maior participação da indústria no IED reflete a combinação de dois fenômenos: a forte queda nominal nos investimentos para os setores primários (agricultura, pecuária e extrativo mineral), o que acabou por naturalmente reduzir sua participação no total (de 23,5% para 13,1%), e o crescimento dos investimentos nos setores automotivo e químico, que caminharam na contramão da maioria dos demais setores.

"Em relação aos setores de agricultura, pecuária e extrativo mineral, a crise iniciada em 2008 interrompeu um longo ciclo de alta de preços de commodities, desde 2003. É possível que essa reversão tenha afetado, ainda que momentaneamente, as perspectivas de prazo mais longo para esse setor", disse uma fonte do governo. "É importante notar, entretanto, que a extração de petróleo da camada do pré-sal representará grande impulso ao setor extrativo nos próximos anos."

No caso da indústria, o volume de capital externo ficou praticamente estável (ligeira queda de 0,9%) em termos nominais na comparação com o período de janeiro a novembro de 2008, somando US$ 11,1 bilhões. Não deixa de ser um dado positivo, já que o fluxo total de IED caiu fortemente no mundo e o Brasil não ficou fora desse fenômeno global.

A mesma fonte destacou que o movimento favorável da indústria reflete os vários meses seguidos de recuperação interna, após a queda abrupta no fim de 2008, provocada pela crise. "Com essa trajetória, as expectativas de médio e longo prazos, essenciais ao IED, não foram afetadas, mantendo o elevado influxo de recursos de investidores estrangeiros."

O economista e especialista em contas externas Antônio Corrêa de Lacerda, da PUC-SP, avaliou que a força do mercado interno brasileiro e as perspectivas de forte crescimento do País a partir de 2010 estimulam o investimento em setores como o automotivo. Ele ponderou que esses fatores superam o fato negativo do câmbio valorizado no Brasil, à medida que o IED mira o longo prazo. Mas disse que, se a taxa cambial fosse competitiva, o País seria muito mais atrativo para investidores estrangeiros.

"As estratégias dos grandes grupos internacionais levam sempre em conta aspectos de longo prazo", afirmou Lacerda. "Mas seria equivocado concluir que o câmbio valorizado não prejudica a atração de IED de melhor qualidade, porque a pergunta que tem de ser feita é qual o volume e perfil de IED que receberíamos com um câmbio competitivo", acrescentou, ressaltando as deficiências do Brasil em setores de alta tecnologia.

A economista-chefe do banco ING, Zeina Latif, disse que o perfil do fluxo de IED no Brasil em 2009 está relacionado à combinação de queda nas exportações e a aposta no bom desempenho do mercado interno. "Ninguém trabalha com um cenário forte de aceleração do comércio exterior. As exportações hoje desestimulam o IED", afirmou Zeina.

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