Inédito entre papas, nome evoca dois santos

São Francisco de Assis é relacionado à humildade, busca da paz e preocupação ambiental; São Francisco Xavier foi um grande missionário

EDISON VEIGA, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2013 | 04h22

Escolher o nome pelo qual passa a ser chamado é o primeiro ato político de um novo papa. O gesto funciona como uma espécie de carta de intenções: expressa aquela que deve ser a tônica do pontificado. O primeiro papa da História a usar o nome Francisco pode ter se inspirado em diversos santos - há pelo menos seis chamados assim na hagiografia católica.

Mas dois deles parecem ter um significado mais forte para o que se espera do argentino Jorge Bergoglio: São Francisco de Assis (1182-1226) e São Francisco Xavier (1506-1552). O primeiro teria sido o santo de devoção de Inácio de Loyola (1491-1556) - fundador da Ordem dos Jesuítas, a que Bergoglio pertence. Já o outro São Francisco foi, ele próprio, um dos primeiros jesuítas.

São Francisco de Assis é, sem dúvida, o mais conhecido de todos os santos com este nome. "O que demonstra que foi uma ótima e criativa escolha do novo papa", comenta o padre Antonio Manzatto, professor de Teologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). "São três as características principais deste santo, as três muito prezadas e necessárias ao mundo de hoje: a paz mundial, a atenção à pobreza e às injustiças sociais e a preocupação com o meio ambiente."

Para o teólogo, os predicados de São Francisco Xavier se somariam a estas para complementar os objetivos possivelmente desejados pelo novo papa. O santo jesuíta foi um grande missionário - teria sido o que converteu mais gente ao cristianismo desde o apóstolo Paulo.

"Esse ardor missionário tem sido defendido como a vocação da Igreja latino-americana desde a Conferência (Geral dos Bispos da América Latina) de Aparecida, em 2007", lembra Manzatto. "São Francisco Xavier foi à Índia, foi ao Japão... Ele viveu essa dinâmica. E isso deve ser reforçado pelo novo papa." São Francisco Xavier ficou conhecido como o "Apóstolo do Oriente".

Franciscanos. Se em 2005 houve entusiasmo dos religiosos beneditinos, que se sentiram reverenciados por Joseph Ratzinger ter escolhido o nome Bento, agora foi a vez dos franciscanos. "Essa escolha traz conotações e demonstra aquelas que devem ser as prioridades do novo papa. Não poderia ser diferente: estamos muito felizes", afirma o frade Gustavo Medella, coordenador de comunicação da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil.

O religioso acredita que o papa eleito ontem terá um pontificado muito próximo da espiritualidade franciscana. "Chamou-me a atenção que em seu primeiro discurso oficial ele já citou duas ou três vezes a palavra fraternidade", analisa Medella. "Fraternidade é um elemento central da vida de São Francisco de Assis. O novo papa demonstra que quer reforçar esta espiritualidade, enfatizando que todos vamos trabalhar juntos pela Igreja."

Bergoglio já cultivava atitudes de humildade franciscana ao longo de sua carreira religiosa. Ao contrário de boa parte dos bispos, ele preferia usar ônibus para ir trabalhar e cozinhava a própria comida. E, assim como São Francisco cuidava de leprosos, o religioso argentino, em 2001, lavou e beijou os pés de 12 pacientes com aids de um hospital de Buenos Aires.

O frade Medella também aventa a possibilidade de que, pela proximidade semântica, um dia o novo papa seja hóspede dos franciscanos em uma vinda ao Brasil - não necessariamente na primeira visita, que deve ocorrer para a Jornada Mundial da Juventude, em julho, no Rio. Em 2007, Bento XVI ocupou um quarto no Mosteiro de São Bento, no centro de São Paulo. "Claro que (a escolha do local para receber um papa) não é tão simples assim e não se trata de uma relação automática. Mas se isso algum dia ocorrer, não tenho dúvida de que será uma grande honra para nós", diz.

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