Infelizmente, foi uma tragédia anunciada

Há séculos o homem acumula exemplares de plantas e animais em museus de história natural. Da mesma forma que bibliotecas guardam a memória da humanidade em obras impressas, as coleções científicas guardam o conhecimento sobre a biodiversidade do planeta em organismos preservados. Para quê manter essas coleções científicas? A pergunta é necessária diante da tragédia que atingiu o Instituto Butantan, onde um incêndio destruiu as coleções científicas de serpentes, aranhas e escorpiões.

Hussam Zaher e Miguel Trefaut, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2010 | 00h00

A tragédia terá repercussões ainda não estimadas. O acervo representava um extraordinário banco de dados que documentava a história das serpentes e dos processos que levaram à sua origem e diversificação. Documentava também a própria história da ocupação humana no Estado por meio dos registros de cobras recebidas pelo Instituto ao longo do século passado.

Infelizmente, esta foi uma tragédia anunciada pois a coleção carecia de condições de segurança adequadas. Uma situação nunca resolvida, apesar dos inúmeros alertas feitos por pesquisadores.

Lamentamos profundamente o ocorrido e esperamos que o País passe a dar atenção devida às nossas coleções. Caso contrário, poderemos sofrer outras perdas da mesma magnitude. Coleções centenárias como as do Museu de Zoologia da USP, Museu Nacional da UFRJ e Museu Goeldi, no Pará, carecem de prédios adequados, e estão na mesma situação de risco.

Sem esta tomada de consciência, de nada vale ostentarmos o título de país detentor da maior biodiversidade do planeta. Perdemos nessa tragédia parte importante da memória nacional e a chave para compreender muito de nosso passado e nosso futuro. É fútil falar em preservar a biodiversidade se não assumirmos que nossos museus precisam de condições adequadas para que o seu patrimônio não encontre o mesmo destino das coleções do Butantã. Que essa tragédia sirva de lição.

Hussam Zaher é diretor do Museu de Zoologia da USP.

Miguel Trefaut Rodrigues é professor do Instituto de Biociências da USP.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.