Inflação ainda é o risco maior

A economia brasileira crescerá 4,5% em 2011, em vez dos 5% previstos no começo do ano, segundo a nova projeção do Ministério da Fazenda. Até 2014, o crescimento médio ficará em 5,1%, contra 5,9% na estimativa anterior. Embora um pouco menos otimista, o governo ainda projeta para o período da presidente Dilma Rousseff um desempenho muito melhor que o dos 12 anos anteriores. A profecia provavelmente será confirmada, se nenhuma tolice de grandes proporções for cometida na política econômica. Um dos erros mais perigosos seria descuidar da inflação com o pretexto de crescer um pouco mais. Isso até pode dar certo a curto prazo, mas é fácil prever o resultado final: preços em disparada num ambiente de insegurança e de estagnação. O Brasil já passou por essa experiência mais de uma vez e é sempre conveniente recordá-la. A memória de muitos é perigosamente curta e, além disso, os mais jovens talvez desconheçam a história.

01 Junho 2011 | 03h13

As novas projeções, divulgadas na segunda-feira, incluem uma inflação maior que a estimada anteriormente. A taxa prevista para o ano subiu de 5% para 5,6%. O Ministério da Fazenda recorre, neste caso, aos cálculos do Banco Central (BC). Para 2012 a revisão foi bem menor, de 4,5% para 4,6%, ainda quase no centro da meta. Segundo os analistas do Ministério, a acomodação da atividade "numa taxa de crescimento mais sustentável" resultará numa pressão menor sobre os preços já no segundo semestre deste ano.

Alguns sinais de arrefecimento econômico parecem confirmar a expectativa dos economistas da Fazenda. Em abril, a produção industrial foi 2,1% menor que a de março, descontados os fatores sazonais, e 1,3% inferior à de abril do ano passado. A atividade recuou em 13 dos 27 ramos cobertos pela pesquisa mensal do IBGE. Apesar disso, o crescimento acumulado em 12 meses - 5,4% - ainda é considerável. Poderia ser maior, se o real estivesse menos valorizado e a indústria brasileira tivesse melhores condições de preços para competir no País e no mercado externo.

É arriscado atribuir o recuo da produção industrial à alta de juros e a outras medidas de restrição ao crédito. Apesar de algum aperto monetário, a carteira de financiamentos às pessoas jurídicas aumentou 1,5%, enquanto a dos empréstimos a pessoas físicas cresceu 1,1%. Os créditos com recursos livres corresponderam a 30,5% do PIB. No quadrimestre, no entanto, o crédito pessoal acumulado recuou ligeiramente e foi 0,4%menor que nos quatro meses anteriores. Essa diminuição parece ainda muito pequena para conter a demanda.

O consumidor se mantém razoavelmente otimista, segundo as últimas pesquisas. Em maio, o Índice Nacional de Expectativa do Consumidor, elaborado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), ficou estável, depois de seis meses de queda moderada. Os entrevistados mostraram otimismo quanto à redução do desemprego e à evolução da própria renda. Os últimos dados do IBGE mostram desemprego em baixa e corroboram, portanto, a avaliação otimista das condições do mercado de trabalho.

Mas os dados do IBGE mostram também uma ligeira redução do salário real, só explicável pela inflação, num cenário de emprego ainda muito favorável. Não por acaso, a pesquisa da CNI detectou, entre os consumidores, um aumento da preocupação com a alta de preços.

Se esse temor se traduzir em redução da demanda, o ajuste dos preços ao consumidor ocorrerá sem muita dificuldade, até porque os preços dos alimentos, no atacado, já evoluem mais favoravelmente. Houve recuo de 0,25% em abril e de 1,84% em maio, de acordo com a pesquisa do Índice Geral de Preços do Mercado (IGPM). Mas os preços dos serviços continuam pressionados, indicando uma demanda muito forte. As negociações salariais de sindicatos poderosos, a partir de agosto, terão como referência uma inflação acumulada ainda alta. Se os sindicatos conseguirem grandes aumentos e a demanda interna ainda permitir o repasse de custos pelas empresas, será muito mais difícil conter a inflação. Fazenda e BC não deveriam desprezar esse risco.

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