Inflação 'aumenta' pobreza na Argentina, diz consultoria

Estudo independente indica que alta dos preços gerou 420 mil pobres nos últimos 6 meses.

Marcia Carmo, BBC

23 de julho de 2008 | 18h24

A alta da inflação gerou 420 mil pobres e 335 mil indigentes na Argentina durante os últimos seis meses, de acordo com levantamento da Sociedade de Estudos Trabalhistas (Sel Consultores, na sigla em espanhol). De acordo com o estudo, a pobreza afeta hoje 31,6% da população e a indigência, 10,8%. Em entrevista à BBC Brasil, Ernesto Kritz, diretor do instituto e economista, afirmou que o aumento da exclusão social passou a ser evidente desde o ano passado, pela primeira vez desde a crise de 2001, e tem se agravado aceleradamente. "O aumento da inflação está devolvendo para o nível de pobreza pessoas que tinham saído desta situação durante estes últimos anos de crescimento econômico", disse Kritz, especializado em economia trabalhista e social.Para ele, a diferença entre os números da inflação do governo e das consultorias privadas dificulta a solução dos problemas sociais."Se o governo reconhecesse o problema real da inflação seria mais fácil combater a pobreza. Seria possível ajudar, principalmente os indigentes, com planos sociais. Sabemos que resolver os problemas estatísticos não resolverá a pobreza, mas não é possível encarar a realidade com estes dados", afirmou. Na comparação entre o levantamento do Sel Consultores e do Indec (Instituto de Estátisticas e Censos), existem cerca de 1,7 milhão de pessoas a menos no índice de indigência do governo e quatro milhões a menos de pobres. O último dado do Indec corresponde ao período de outubro de 2007 a março deste ano e mostrou uma pobreza de 20,6% e uma indigência de 5,7%. De acordo com estudos privados, citados no documento do Sel Consultores, a cesta básica de alimentos aumentou 13,6% no primeiro semestre deste ano. Para o Indec, a alta foi de 2,8%. Na opinião de Kritz, a inflação, principalmente desta cesta básica, foi o principal motivo para o incremento no total de pobres e indigentes. Nos últimos tempos, analistas econômicos de diferentes tendências e técnicos do Indec questionam os dados oficiais, acusando-os de "maquiados". Na terça-feira, trabalhadores do Indec voltaram a realizar um protesto, bloqueando o trânsito, para chamar a atenção das autoridades para a questão, que foi levada, recentemente, pela oposição à Justiça argentina. Para o governo, a inflação está em torno dos 8% e para diferentes consultorias econômicas privadas, nos últimos 12 meses, ela estaria acima dos 25%. Até a histórica crise de 2001, a Argentina não tinha indigência e, atualmente, continua sendo apontada pela Cepal como um dos países mais igualitários da América Latina. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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