Wilton Júnior/Estadão
Wilton Júnior/Estadão

Inflação de serviços acompanha ritmo de crescimento da demanda e ameaça retomada

Alta nos preços pressiona margens de lucro e ainda há incerteza sobre ritmo de crescimento

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2022 | 13h35

RIO - Após dois anos no rol dos setores mais afetados pelas restrições ao contato social por causa da pandemia, bares, restaurantes, hotéis e outros serviços prestados às famílias deram início, finalmente, a uma trajetória consistente de retomada dos níveis de atividade, mas nem tudo são flores. A inflação pressiona as margens de lucro e ainda há incerteza sobre o ritmo de crescimento – mais no setor de bares e restaurantes do que na hotelaria, que vê um cenário mais claro de continuidade da demanda aquecida.

A inflação de serviços também tem acompanhado o retorno gradual da demanda: os preços aceleraram de uma alta de 7,1% nos 12 meses terminados em abril para 8,6% em maio, de acordo com os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15), do IBGE, compilados por Fábio Bentes, economista da CNC.

“É isso que eu acho que vai frear esse consumo. A geração de vagas formais (registrada) pelo Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, do Ministério do Trabalho) está menos positiva, está desacelerando”, disse Bentes. “O problema é que agora a gente vê saindo de campo a questão da crise sanitária, mas entrando em campo as condições macroeconômicas desfavoráveis”, completou.

A inflação ainda atinge em cheio o custo dos insumos de bares e restaurantes, lembrou o presidente do SindRio, sindicato dos empresários do setor, Fernando Blower. O resultado aí é o achatamento das margens de lucro, já que, para muitos negócios, os gastos com comida, energia elétrica e combustíveis subiram mais do que os preços finais. Segundo a pesquisa da Abrasel, apenas 35% dos empresários consultados tiveram lucro em abril, enquanto 78% dos entrevistados não conseguiram reajustar seus preços em linha com a inflação.

Humberto Munhoz, sócio do grupo Turn The Table, dono de casas em São Paulo, como o bar O Pasquim e a Vero! Coquetelaria, ressaltou que isso dificulta a gestão. Os empresários ficam entre o receio de os reajustes afastarem os clientes, arrefecendo a demanda que ainda se recupera, e o risco de as margens se achatarem tanto a ponto de chegar ao prejuízo. Nas casas de Munhoz, a saída foi trocar reajustes anuais dos cardápios por aumentos pontuais, aos poucos, para testar a reação da clientela.

“A inflação está aí para todos. E o bolso do cliente é um só. Se a gasolina aumentou e aumentou a escola particular, obviamente, no fim do mês sobra menos dinheiro para entretenimento”, disse o empresário.

Para Rodrigo Lobo, gerente da Pesquisa Mensal de Serviços, do IBGE, as famílias de renda média e alta são o público-alvo do setor de serviços, enquanto que as de renda mais baixa precisam alocar seus parcos recursos em itens de primeira necessidade, como alimentos. Por esse motivo, talvez o setor não seja afetado de maneira tão contundente por reduções nos níveis de emprego e de renda. No entanto, Lobo concorda que a inflação elevada, de maneira geral, obriga os consumidores a redirecionar mais do seu orçamento mensal para os gastos essenciais, reduzindo o espaço para o consumo de serviços supérfluos.

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