Inflação será risco durante todo segundo mandato

Depois de uma decisão acertada de aumento de juros pelo Banco Central, hoje veio mais uma das razões para que o BC continue preocupado. A elevação de 0,71% no IPCA de março pode parecer razoável comparado com a média mensal de 1,26% que tivemos no primeiro trimestre, mas ainda assim é uma má notícia. 

Sergio Vale*, O Estado de S. Paulo

08 Maio 2015 | 19h26

A pressão recente neste início do ano tem ajudado a aumentar a quantidade de itens que sofre aumento. Com inflação que deve ficar sistematicamente acima de 8% durante vários meses, quando se calcula o acumulado em 12 meses, a tendência de aumento de repasse de preços para o consumidor por parte das empresas cresce mais ainda. Com elevação dos custos de energia, aumentos salariais ainda elevados para o nível de recessão pelo qual passamos, além dos impactos da depreciação cambial numa economia que importa mais insumos hoje do que no passado, fica difícil para as empresas não repassarem alguma coisa para o consumidor. O que se vê, de fato, é que há uma tendência de aumentos mais sistemáticos que podem ser vistos pelo indicador de difusão, que sinaliza quantos itens do IPCA estão tendo aumento de preço. Hoje, esse indicador está em 72%, quando o normal é ficar mais próximo de 50%. Da mesma forma, os indicadores de núcleo, que retiram os elementos com variação mais intensa para cima ou para baixo, também tem se mostrado pressionados. No acumulado em 12 meses até abril esse indicador chegou a 7,5%, algo que não vemos acontecer desde 2005.

Essa sensação de inflação que se espalha fica mais delicada ainda quando se percebe que a população começa a trabalhar com números também elevados de preço para o futuro. As pesquisas da FGV sobre a percepção do consumidor sobre a inflação futura têm indicado que a população já vê 8% como algo que ocorrerá nos próximos meses. 

Mudar essa percepção do consumidor e dos empresários demandará um esforço concentrado do BC para fazer com que essa inflação elevada ceda logo. O banco tem sido mais explícito na indicação de preocupação com a inflação deste ano, mas ainda insiste em um irreal 4,5% em 2016, uma queda quase pela metade da inflação deste ano. Isso não apenas é irreal, mas como ainda coloca certas dúvidas na capacidade do banco em conseguir mudar a trajetória da inflação. Metas realistas fazem parte da tarefa do banco em tornar suas ações mais críveis por parte dos agentes econômicos. Contar com um ajuste fiscal significativo não parece o mais razoável dado que será difícil conseguir chegar a 0,5% do PIB de superávit primário em 2015. 

Por isso, os próximos anos ainda serão desafiadores para a inflação. Nossa estimativa é que nos oito anos da presidente Dilma a inflação acumulará 64%, um retrocesso em relação ao caminho de avanço no controle que se via desde o governo FHC. Nos oito anos deste governo a inflação acumulou 100%. Nos anos Lula, o crescimento caiu para 56%. A aceleração da inflação no governo seguinte sinaliza que há dificuldades que devem ser seriamente contempladas para impedir que permaneçamos com inflação elevada no País. Mais do que nunca, será necessário um trabalho de grande esforço por parte do Banco Central.

* Sergio Vale é economista-chefe da MB Associados

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