Influência da China na Bovespa supera a dos EUA

67% dos pregões da Bolsa de Valores de São Paulo acompanham o movimento do mercado de Xangai

Leandro Modé, O Estadao de S.Paulo

13 Dezembro 2009 | 00h00

Depois da economia real, é a vez do mercado financeiro. As relações mais próximas entre Brasil e China já não se limitam ao comércio exterior. A chamada correlação entre a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) e a Bolsa de Xangai cresceu fortemente nos últimos anos e, para analistas, deve aumentar ainda mais daqui para a frente. Em português, significa que o mercado acionário chinês influencia cada vez mais o brasileiro.

Levantamento da HSBC Asset Management mostra que, em dezembro de 2003, a correlação entre a bolsa brasileira e a chinesa era de 14%. Ou seja, as duas tinham desempenho semelhante em 14% dos pregões. O porcentual subiu para 67% em dezembro deste ano. No período, a correlação com o Índice S&P 500, principal referência da Bolsa de Nova York segundo analistas, caiu de 78% para 64%.

A rentabilidade mostra caminho parecido. Em 2003, o Ibovespa subiu 103% em dólar, ante 81% do Índice Xangai Composto e 26% do S&P 500. Neste ano, até o início de dezembro, o Ibovespa avançava 118%, ante 59% da bolsa de Xangai e 22% do S&P 500. Essa ligação é um dos argumentos que o principal executivo da HSBC Asset Management, Pedro Bastos, usa para convencer clientes internacionais a investir aqui.

"O Brasil está se tornando uma alternativa para os investidores que querem ter exposição à China, com a diferença de que temos um arcabouço institucional melhor do que os chineses", disse, referindo-se a instituições como o Banco Central (BC) e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

A relação entre os dois mercados tem, evidentemente, raízes na economia real. A China transformou-se no principal parceiro comercial do Brasil e na maior compradora de produtos brasileiros. No mês passado, a corrente de comércio (soma de exportações e importações) Brasil-China atingiu US$ 33,3 bilhões, pouco à frente da relação Brasil-Estados Unidos, que ficou em US$ 32,8 bilhões. Considerando só exportações, a vantagem dos chineses aumenta - US$ 18,9 bilhões, ante US$ 14,4 bilhões.

O Brasil vende à China, principalmente, commodities, como minério de ferro e soja. "Empresas ligadas a commodities representam 60% do Ibovespa", lembra a diretora-geral da Fator Administração de Recursos, Roseli Machado. Portanto, mais até do que a economia real brasileira, o desempenho da economia chinesa é essencial para empresas como a Vale.

Isso não significa que o mercado americano deixou de influenciar o brasileiro. "É importante lembrar que, historicamente, a bolsa brasileira é movida pelos estrangeiros", observou o estrategista-chefe do Banco WestLB, Roberto Padovani. "E o principal termômetro da disposição desse investidor tomar risco (aplicar em ativos como ações) é o S&P 500."

Padovani fez recentemente um levantamento que mostrou que a bolsa chinesa se tornou uma guia não só para o mercado brasileiro, mas para o mundo todo. "O motivo de curto prazo é óbvio: a China é a maior esperança de crescimento global neste período. Mas, no levantamento, percebi que essa influência começou a crescer em 2007", disse Padovani. A razão, de qualquer forma, é semelhante: o expressivo crescimento chinês aumenta o apetite dos investidores pelas ações, nos EUA e em outros países.

O superintendente de Renda Variável do Itaú Unibanco, Walter Mendes, acrescenta que a bolsa chinesa começou a ganhar influência global justamente a partir de 2007, graças a grandes aberturas de capital (como a do Banco da Indústria e do Comércio da China). Houve, também, mudanças institucionais. Antes, estrangeiros só podiam comprar ações chinesas por meio de Hong Kong. Agora, já é possível comprar em Xangai, ainda que com restrições.

"A bolsa chinesa já está no nosso relógio faz tempo. Quando chegamos ao trabalho, olhamos o desempenho das bolsas europeias, dos índices futuros das bolsas americanas e de Xangai", afirmou Mendes. O investidor comum, em sua maioria, ainda não se deu conta disso. Mas, para os analistas, não vai demorar para perceber que terá de olhar com a mesma atenção o vaivém de papéis como o Banco de Construção da China e o Citigroup.

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