Inspiração para escolha do nome foi de 'amigo brasileiro', diz papa CLIMA DE TIETAGEM MARCA ENCONTRO

Papa foi saudado por jornalistas setoristas Francisco revela que, após ser eleito, d. Cláudio Hummes lhe abraçou e pediu atenção especial aos pobres

JOSÉ MARIA MAYRINK, ENVIADO ESPECIAL / VATICANO, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2013 | 02h02

O primeiro encontro "privado" do papa Francisco com a imprensa foi marcado por um clima de euforia e tietagem que empolgou não apenas funcionários do Vaticano. Também jornalistas especializados na cobertura da Igreja, os chamados "vaticanistas", deixaram-se levar por um verdadeiro fascínio pelo pontífice. A cada frase marcante, Jorge Bergoglio era interrompido por salvas de palmas e, em alguns momentos, gritos entusiasmados.

Ao final do discurso, Francisco foi ovacionado pela plateia. Em Roma, é uma tradição entre os repórteres "setoristas" da Igreja aplaudir o papa a cada homilia.

Encerrada a cerimônia, o pontífice recebeu os cumprimentos de dezenas de participantes, boa parte deles funcionários do Vaticano. Francisco cumprimentou muitos deles com abraços efusivos. Outras salvas de palmas foram dirigidas a membros do staff romano, como o porta-voz Federico Lombardi, que recebeu homenagem mais longa.

Quem cumprimentou o papa não se conteve de alegria. Era o caso de Hernán Bernasconi, fotógrafo free-lancer do jornal A Crónica, que conhece Bergoglio há mais de 25 anos. "Faz muitos anos que nos conhecemos e estou muito feliz", disse ele. / A.N.

O papa Francisco afirmou ontem que a inspiração para o nome que escolheu partiu de um brasileiro. Foi d. Cláudio Hummes, o arcebispo emérito de São Paulo, que deu a dica ao cardeal recém-eleito. "Ele me abraçou, me beijou e me disse: 'Não se esqueça dos pobres'. Essa palavra entrou aqui (apontando o coração). Os pobres, os pobres. Logo em seguida, em relação aos pobres, pensei em Francisco de Assis", contou o papa em discurso aos jornalistas.

Ao revelar quem o inspirou, o papa contou um segredo do conclave que, segundo as normas da Constituição Apostólica Universi Dominici Gregis, só pode ser comentado pelo próprio pontífice eleito. "Houve quem pensasse que (a escolha) fosse por causa de São Francisco Xavier ou por causa de São Francisco de Sales", comentou o papa, lembrando interpretações equivocadas. Em seguida, informou a correta.

"Na eleição, eu tinha ao meu lado o arcebispo emérito de São Paulo e também prefeito emérito da Congregação para o Clero, cardeal Cláudio Hummes, um grande amigo. Quando a coisa estava se tornando perigosa, ele me confortava", disse. Após ser conhecido o resultado, houve o tradicional aplauso e foi aí que o brasileiro pediu atenção especial aos pobres.

"Depois pensei nas guerras, enquanto o escrutínio prosseguia, até contar todos os votos. Francisco de Assis é o homem da pobreza, o homem da paz, o homem que ama e protege a criação. Neste momento, nossas relações com a criação não estão indo muito bem. É o homem que nos dá esse espírito de paz, o homem pobre. Ah, como eu gostaria de uma Igreja pobre e para os pobres!"

Com o nome em mente. Francisco recebeu sugestões de outros cardeais. "Algumas pessoas fizeram brincadeiras, falando que eu deveria ser Adriano, porque Adriano VI foi o homem das reformas. Ou Clemente XV, para 'se vingar' de Clemente XIV, que suprimiu a Companhia de Jesus (ordem a qual o papa pertence). São brincadeiras, é claro."

Essa observação, feita em tom de brincadeira, como o papa advertiu, tem fundamento histórico que o papa Francisco, sendo jesuíta, não poderia ignorar. Jornalistas e algumas centenas de convidados, que ocupavam três quartos do Auditório Paulo VI, com 6,3 mil lugares, aplaudiram duas vezes as revelações do papa sobre o conclave.

A partir desse episódio, aumentam as especulações de que d. Cláudio Hummes, de 78 anos, seja chamado de volta à Cúria Romana, na qual trabalhou durante cinco anos como prefeito da Congregação para o Clero. Apesar de já ser emérito (aposentado), d. Cláudio disse anteontem, em entrevista ao Estado, que está à disposição do papa. Bem de saúde, o cardeal brasileiro poderia assumir até funções mais importantes - as de secretário de Estado ou de prefeito da Congregação para os Bispos.

Mesmo que não assuma um cargo e continue morando em São Paulo, como pretende, o brasileiro será com certeza um dos principais conselheiros de Francisco. Ele deve se destacar entre os outros cardeais, todos, aliás, por definição conselheiros e assessores do papa na Igreja.

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