Instável, Paraguai preocupa a OEA

Organizações paraguaias denunciam risco de país tomar rumo de Honduras

Denise Chrispim Marin, O Estadao de S.Paulo

21 Dezembro 2009 | 00h00

Um alerta amarelo foi disparado do Paraguai, segundo a Organização dos Estados Americanos (OEA). Alvo de uma tentativa de golpe de Estado em 1998, o país vizinho estaria vivendo, de acordo com a entidade, um momento de instabilidade política, que poderia convertê-lo em uma Honduras sul-americana.

Na semana passada, em Buenos Aires, organizações paraguaias reunidas nas Forças Democráticas Progressistas fizeram um apelo ao Mercosul - e em especial ao Brasil e à Argentina - pedindo colaboração na redução do risco de uma ruptura institucional no país.

A preocupação foi registrada pelo secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, segundo informou ao Estado um de seus assessores. No Itamaraty, ainda há dúvidas sobre se os discursos inflamados da oposição e do governo paraguaio representam um perigo real. Na dúvida, a diplomacia brasileira se mantém tão alerta como há 11 anos. "Ninguém acha, no Paraguai, que haverá um golpe. Mas todo mundo fala em golpe", resumiu um diplomata.

Até o momento, o presidente Fernando Lugo não pediu ajuda ao governo brasileiro. Mas agradece em público todo apoio que recebe do exterior. Com sua popularidade em queda (ela passou de 93% em agosto de 2008, quando tomou posse, para 25% em novembro), Lugo enfrenta a oposição da ala política dominada pelo general Lino Oviedo e do Partido Colorado (que conduziu a política paraguaia por seis décadas).

MINORIA

A coalizão de conveniência que viabilizou sua eleição reunia siglas de esquerdas e o conservador Partido Liberal. Mas hoje é minoria no Congresso.

Há meses, o governo não consegue aprovar no Senado seus embaixadores para o Brasil, a Argentina, o Uruguai, a Bolívia e a Venezuela, por exemplo. Tampouco deve conseguir barrar o corte de 20% no orçamento para programas sociais, proposto pelos colorados.

Na terça-feira, o próprio Lugo denunciou que "setores que dominaram o poder durante décadas" estariam tramando um golpe. "Mas se houver golpe no Paraguai, não será militar", opina o analista Alfredo Boccia Paz.

Nos últimos 12 meses, Lugo demitiu quatro cúpulas das Forças Armadas - todas dominadas pelo Partido Colorado que, até 1995, só permitia o ingresso de seus filiados nas academias militares - e cortou o orçamento militar. As medidas geraram mal-estar, porém reduziram a possibilidade de uma reação imediata.

Segundo analistas, qualquer tentativa de derrubar Lugo seria, como em Honduras, embasada na Constituição, que permite ao Congresso abrir um processo de impeachment por "mau desempenho" do governo. Um deputado de Ciudad del Este já tentou protocolar um pedido nesse sentido, mas recuou por pressão colorada.

O Partido Colorado quer que um eventual processo de impeachment envolva membros do governo Lugo - inclusive seu vice-presidente, o liberal Federico Franco. Segundo Boccia, qualquer movimentação política para conseguir a saída do presidente só deve ocorrer depois de 1º de abril, quando o Congresso retomará seus trabalhos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.