Investigada diz que os pedidos eram inflados

Empresária suspeita de ser laranja conta, ao depor, que direção do Detran tinha ciência dos pagamentos

Marcelo Godoy e Renato Machado, O Estadao de S.Paulo

30 de novembro de 2009 | 00h00

A dona oficial da empresa Cordeiro Lopes & Cia. Ltda., que recebeu R$ 64,8 milhões do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) para emplacar carros, Vilma Pereira Araújo, de 54 anos, mora em uma casa simples, que é alugada em nome do marido, Nilton Gomes de Araújo, de 50, no Jardim Japão, na zona norte de São Paulo. O casal se mudou para ali ao deixar o apartamento que ocupava na Cohab de Parada de Taipas, também na zona norte.

Suspeita de ser laranja, ao depor em 5 de novembro na Corregedoria da Polícia Civil para o delegado Luiz Antônio Rebello, Vilma negou que a empresa fraudasse as prestações de contas de serviços enviadas ao Detran. Disse que "nenhuma cobrança efetuada pela Cordeiro Lopes, hoje tida como a mais, foi feita sem a ciência do Detran, mais precisamente de seus diretores, drs. Ivaney e Ruy". Vilma se refere aos delegados Ivaney Cayres de Souza, diretor do órgão de 2005 a 2007, e Ruy Estanislau Silveira Mello, diretor de 2007 a outubro de 2009 - Mello diz que isso nunca ocorreu em sua gestão nem na de Cayres.

O que a dona oficial da empresa contou revelaria não uma fraude, mas um descontrole administrativo gigantesco no Detran. Segundo ela, um diretor de Ciretran que "lacrava cem veículos por mês, solicitava 2 mil placas à Cordeiro Lopes para que ficassem no estoque". A empresa atendia ao pedido, pois "trabalha visando o lucro". "Sendo utilizadas cem placas pela Ciretran, as outras 1.900 não utilizadas após 30 dias eram inutilizadas." Viravam sucata encaminhada ao Fundo de Solidariedade do Governo.

Vilma confirmou conhecer o empresário Humberto Verre, dono da Casa Verre, "com quem trabalhou durante 20 anos". A Casa Verre é investigada desde 1997 pelo Ministério Público Estadual porque era contratada para fazer placas para o Detran sem licitação e por meio de emergência - a situação provocou a queda, em 2005, do então diretor do Detran, José Francisco Leigo. O dono da Verre, segundo Hélio Rabello Passos Junior, da Associação dos Fabricantes de Placas, "pôs todo o aparato necessário à fabricação de placas, inclusive funcionárias, à disposição da Cordeiro Lopes".

"TEM COISA ERRADA"

Confrontado pelo Estado com o faturamento da empresa da qual Vilma, sua mulher, é oficialmente sócia desde maio, Araújo disse : "Tem coisa errada aí". Afirmou que nunca viu a cor do dinheiro. "É muito dinheiro. Alguém tá comendo esse dinheiro aí e não sou eu." Se tivesse os milhões da Cordeiro, Araújo contou que compraria uma casa em Campina Grande (PB) e outra de praia em João Pessoa (PB). "Nem casa própria tenho."

O marido afirmou não se meter nos negócios de Vilma, mas confirmou que ela era a dona da empresa desde maio conforme consta na Junta Comercial do Estado - ela teria 95% da Cordeiro Lopes. À corregedoria, ela se negou a dizer quanto retirava por mês e com que recursos comprara a Cordeiro.

A reportagem deixou cartão com telefone para que Vilma telefonasse. Procurou-a ainda na sede da Cordeiro Lopes, na zona leste. Ali foi informada que ela não estava. Também deixou contato, mas não obteve resposta. Os contatos foram gravados. Ao depor na corregedoria, Vilma se fez acompanhar por dois advogados com escritório nos Jardins, na zona sul de São Paulo. O Estado telefonou para os dois, mas eles não se manifestaram.

Os outros 5% da empresa pertenceriam a Lucia Aparecida Lopes da Silva, que mora em São José (SC). É ali, na sala lateral 3 do número 110 da Avenida Josué Di Bernard, que devia ficar a sede da Cordeiro Lopes. No lugar existe a empresa Cordeiro Placas. Lucia contou que pouco sabe dos negócios, pois quem cuida deles é seu marido, Valdemir. Relatório da corregedoria mostra que a Cordeiro Lopes recebeu R$ 29,1 milhões neste ano até julho, quando a fraude foi denunciada, e R$ 35,6 milhões em 2008.

Frases

Nilton Araújo

Marido da dona oficial da Cordeiro Lopes

"Alguém tá comendo esse dinheiro aí e não sou eu"

Vilma Pereira Araújo

Dona oficial da Cordeiro Lopes

"Nenhuma cobrança efetuada pela Cordeiro, hoje tida a mais, foi feita sem a ciência do Detran"

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