Investigador diz que só anotava gorjetas

Ele nega que contabilidade de sua agenda fosse uma lista de propina

Bruno Tavares e Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

30 Dezembro 2009 | 00h00

O investigador Aparecido da Silva Santos, encarregado de expedir carteiras nacionais de habilitação (CNHs) na Ciretran de Ferraz de Vasconcelos, negou que os lançamentos com nomes e valores anotados em suas agendas fossem a contabilidade da propina arrecadada pela máfia das carteiras. Em depoimento à Corregedoria da Polícia Civil, Cido afirmou que tinha por hábito registrar as "gorjetas ou gratificações" que recebia dos candidatos e frisou que "jamais solicitou ou exigiu qualquer importância indevida para fazer ou deixar de fazer qualquer coisa naquela Ciretran".

O policial também disse não se lembrar do teor dos diálogos interceptados pela Operação Carta Branca, em que apareceu tratando sobre a concessão de CNH para um analfabeto e um deficiente físico, pois falava muito ao telefone. De fato, é isso que revelaram as escutas. Em uma conversa com a dona de autoescola Elaine Gavazzi, por exemplo, Cido trata sobre um "imprevisto" na concessão de CNH para um analfabeto. Em vez de assinar o nome correto dele, Joal, a funcionária escreveu João. Em outro diálogo, os dois combinam como evitar que o acidente envolvendo um homem que comprou sua CNH, deficiente físico, viesse à tona - o motorista tinha o "pé torto".

As investigações revelaram que as carteiras de habilitação eram vendidas a preços que variavam de R$ 750 a R$ 1.800, conforme a complexidade da fraude. Um analfabeto pagava R$ 1.050. Para os corregedores, a versão de Cido "está desassociada da realidade e da lógica dos fatos e, por isso, infere-se que é mendaz (mentirosa) e não merece credibilidade".

O escrivão Ulisses da Silva Leite, outro acusado, disse desconhecer como a Ciretran inseriu 1.956 declarações falsas no sistema de emissão de CNHs. O investigador Johnson Benedito de Paula afirmou que soube pela imprensa que seu nome constava da agenda de Cido e negou receber propina.

Para os corregedores, houve "prática de atos de corrupção passiva e de improbidade pelos processados, eis que cientes da ilicitude dos atos não mediram esforços para praticar condutas que violaram os princípios da administração pública, sobretudo de legalidade e moralidade".B.T e M.G.

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