Investimento da China na África é alerta para o Brasil, diz Lula

Presidente encerra viagem ao continente e pede presença brasileira mais forte na região.

Rogerio Wassermann, BBC

18 de outubro de 2007 | 17h50

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva encerrou nesta quinta-feira sua visita de quatro dias à África dizendo que a onda de investimentos de países como a China no continente é "um alerta" para que o Brasil ocupe um espaço que, em princípio, deveria ser seu.De acordo com o presidente, a distância do Oceano Atlântico, que separa o Brasil do continente, não deve ser obstáculo para uma presença brasileira mais forte na região. Segundo Lula, "não é apenas o dinheiro que conta" nessa questão."A afinidade histórica do Brasil com Angola não permite que o Brasil fique feliz de ver que outros países estão entrando em Angola quando o Brasil poderia ter uma participação muito mais forte", disse o presidente, em Luanda, pouco antes de embarcar para retornar a Brasília.Lula argumentou ainda que uma parceria com o Brasil também seria mais vantajosa do ponto de vista dos africanos."Muitas vezes, os chineses fazem investimento na perspectiva de extrair matéria-prima para o seu país", disse. "Nós não fazemos isso, nós empregamos dinheiro para desenvolver o país."Para o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, "na África, existe hoje uma sede de Brasil".Segundo Amorim, produtos brasileiros poderiam substituir com competitividade produtos similares importados de outros mercados pelos países africanos.O ministro admitiu, porém, que o problema para isso se concretizar é a questão do transporte, já que não existem hoje vôos ligando o Brasil diretamente a países da África.Amorim citou, porém, que existem planos para abertura de uma linha ao Senegal, pela companhia BRA, e para a Nigéria e Angola, pela Ocean Air.Na manhã desta quinta-feira, ao se reunir com o presidente angolano José Eduardo dos Santos, Lula anunciou uma linha de crédito adicional do Brasil para Angola de US$ 1 bilhão, praticamente duplicando o crédito já concedido ao país.Lula disse que esse anúncio não foi feito "para não perder terreno" para a China, que já emprestou US$ 4,5 bilhões a Angola, mas "pela necessidade do Brasil de fazer o financiamento"."Angola é um país que tem total garantia de empréstimos, porque paga em petróleo", argumentou. "Portanto, não tem risco nenhum."Segundo o presidente, os empréstimos e os investimentos brasileiros na África não têm condicionantes políticos, como possíveis exigências de respeito à democracia e de combate à corrupção."A relação de um Estado com outro Estado não pode ter esse viés político-ideológico, político-partidário, político-eleitoral", afirmou Lula."Se isso tivesse importância na relação comercial, vocês acham que o Nixon teria, em 1973, transformado a China em parceiro preferencial dos Estados Unidos?", questionou.Para Lula, o que é levado em conta "é uma relação de Estado para Estado. Um Estado precisa de empréstimo, pode pagar, e o Brasil tem dinheiro para fazer o empréstimo, então fazemos, como com qualquer outro", disse."Só existe componente ideológico na minha relação pessoal. Na minha relação como presidente da República, é um componente de política de Estado", afirmou.Lula disse tratar os Estados Unidos como trata a Rússia ou a China. "Temos políticas estratégicas com vários países, não precisamos ter afinidade ideológica", concluiu.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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