Investimento demais é o novo problema chinês

Economistas acham que muitos projetos poderão ser inviáveis e bancos perderão o dinheiro do financiamento

Cláudia Trevisan, O Estadao de S.Paulo

30 de janeiro de 2010 | 00h00

A febre de construções e a urgência dos investimentos que tomaram conta da China no ano passado podem ter gerado uma série de projetos desnecessários, que não vão gerar retorno econômico nem os recursos necessários para o pagamento dos empréstimos que os financiaram.

"Todas as províncias e cidades chinesas embarcaram em pelo menos uma obra de infraestrutura de grande porte e alguns desses investimentos não serão viáveis do ponto de vista econômico", afirma Patrick Chovanec, professor do MBA da Universidade Tsinghua. Segundo ele, o governo chinês concentrou em dois anos projetos de infraestrutura que estavam previstos para o período de 10 anos.

As obras são financiadas pelos bancos estatais, que concederam créditos de US$ 1,4 trilhão em 2009, o dobro do ano anterior e o equivalente a um terço PIB. Essa montanha de dinheiro se transformou em investimento, cuja taxa cresceu 30% em relação a 2008 e foi o principal motor do crescimento da economia.

Até agora, a receita funcionou e a China terminou 2009 com a invejável expansão de 8,7%. Mas a enorme quantidade de dinheiro injetada na economia a juros baixos provocou um investimento excessivo, avalia Michael Pettis, professor de Finanças Internacionais da Universidade de Pequim. "Esse superinvestimento pode levar à formação de bolhas no mercado imobiliário, na Bolsa de Valores e no setor manufatureiro."

Para ele, a mais perigosa das três bolhas é a do setor produtivo, que só pode ser corrigida com o fechamento de empresas, a demissão de empregados e o calote dos empréstimos que financiaram os investimentos. Esse cenário pode ser evitado se aparecerem novos consumidores de produtos chineses para ocupar o lugar que os norte-americanos deixaram vago com a crise financeira. Mas não parece haver no horizonte um candidato viável.

A opção para ganhar tempo é continuar a aumentar os investimentos, mas essa saída tem a desvantagem de agravar ainda mais o problema do excesso de capacidade produtiva. Além disso, ela tem um limite: o endividamento do Estado. Se os bancos estatais não recuperarem os bilhões que concederam em empréstimos, o rombo será coberto pelo governo, o que provocará aumento da dívida pública e redução da habilidade do Estado de continuar a financiar investimentos e manter o alto crescimento.

Oficialmente, a dívida pública chinesa está em 20% do PIB, mas inúmeros analistas sustentam que o índice é bem maior, se forem incluídos os débitos das províncias, dos governos locais, das estatais e de outras agências controladas pelo Estado. Victor Shih, professor da Universidade Northwestern de Chicago, estima que o porcentual chegue a 70% do PIB. "O preço do alto crescimento chinês é o aumento de créditos irrecuperáveis no futuro, porque os bancos financiaram mais de dois terços do pacote de estímulo e muitos desses empréstimos não serão pagos", sustenta Shih.

Em sua opinião, se não houver recuperação sustentada das exportações, a situação só poderá ser mantida por mais um ano e meio, até que o sistema bancário seja exaurido pela concessão de crédito.

Outra ameaça ao sistema bancário é o fato de que um número crescente de empresas dá imóveis como garantia dos empréstimos. Se o preço dos imóveis despencar, afetará os balanços das instituições financeiras, que enfrentarão o descasamento entre o valor da dívida a receber e do bem dado como garantia da operação.

Para Chovanec, a situação é especialmente preocupante no caso de projetos imobiliários comerciais, que precisam ser ocupados para que seus construtores tenham renda e paguem a dívida. "Muitos investimentos estão sendo realizados por empresas estatais, que não têm nenhuma experiência no setor imobiliário. Elas estão pagando fortunas por terras e provocando inflação nos preços para construção de projetos que não fazem sentido do ponto de vista econômico."

Shih acrescenta que uma quantidade significativa dos empréstimos concedidos em 2009 acabou financiando construções, mesmo os concedidos para outros fins. "Uma correção significativa de preços no mercado imobiliário vai causar um enorme problema financeiro na China", prevê.

Ainda que as piores previsões se realizem, Chovanec não considera provável uma crise financeira de grandes proporções. "O potencial de dano é mitigado por uma série de fatores", ressalta. Entre eles, o mais importante é o fato de que o governo não deixará os bancos quebrarem.

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