Ipea: mais de 2/3 das cidades não têm abrigo para idoso

A população idosa é a que mais cresce no Brasil, mas há poucas alternativas para os cuidados dessas pessoas, quando começam a perder a independência. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) fez o primeiro censo de abrigos e asilos do País - instituições de longa permanência para idosos (ILPI), no jargão técnico - e descobriu que apenas 0,5% da população com mais de 60 anos está em uma das 3.548 instituições brasileiras. Mais de dois terços dos municípios brasileiros não têm nenhum abrigo para idosos.

CLARISSA THOMÉ, Agência Estado

24 de maio de 2011 | 19h13

"É uma má notícia. Coloca para a família uma responsabilidade muito grande de cuidar do seu idoso dependente, e sem levar em conta a possibilidade de a família cuidar", afirma a demógrafa Ana Amélia Camarano, coordenadora de População e Cidadania da Diretoria de Estudos Sociais do Ipea.

Ela ressalta que a situação não leva em conta as mudanças na família. Hoje a mulher, a principal cuidadora, participa ativamente do mercado de trabalho. Além disso, múltiplos casamentos acabam por enfraquecer laços familiares. "Quem tem muita sogra, não cuida de nenhuma."

A maioria das instituições brasileiras é filantrópica (65,2%). As particulares correspondem a 28,2% e as públicas são 6,6%. O estudo mostra que houve um crescimento acentuado do número de abrigos e asilos - enquanto nos anos de 1940 e 1950 aproximadamente 20 instituições eram abertas anualmente, na primeira década dos anos 2000 esse número passou para 90. Um terço delas (1.047) se identifica como lares e tenta reproduzir a vida em família, afirma Ana Amélia. Em média, cada instituição abriga 30 residentes.

Ana Amélia reconhece que "nenhum país do mundo" tem como oferecer abrigo para toda a sua população idosa dependente. Mas defende investimento dos governos no cuidado domiciliar formal. "É preciso oferecer uma rede de cuidados para a população idosa: garantir benefício monetário para o cuidador familiar, a inclusão desse cuidador no sistema de seguridade social, a oferta de centros dia, onde o idoso possa ter atividades."

Em todo o País, o governo federal tem apenas um abrigo - o Cristo Redentor, em Benfica, zona norte do Rio de Janeiro. Ali, entre os 280 residentes está Carlos Bastos, de 73 anos. Na juventude, ele viajou pela Europa como integrante da Força Internacional de Paz, da Organização das Nações Unidas (ONU). Foi representante comercial de empresas fornecedoras de peças para perfuração de petróleo. Aos 61 anos, com os contatos profissionais já reduzidos, aposentou-se e passou a viver no abrigo, onde divide o tempo entre o jogo de biriba e a biblioteca, da qual se tornou responsável.

"O idoso pobre não tem dias felizes. Onde ele está - no abrigo ou em casa -, quer ser tratado com alegria, com dignidade, sentir o beijo de um neto. A sociedade tem que entender que só não fica idoso quem morre no meio do caminho".

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