IPO do BTG Pactual fortalece banco e testa apetite de investidor

O BTG Pactual deu partida nesta quinta-feira à sua oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês), uma das mais esperadas nos últimos anos, que poderá consolidar o grupo do bilionário André Esteves como um dos mais valiosos do país.

ALUÍSIO ALVES E GUILLERMO PARRA-BERNAL, REUTERS

01 Março 2012 | 19h23

A transação deve aumentar o poder de fogo do grupo que surgiu em 1983 como corretora e que se tornou o maior banco de investimentos independente da América Latina, com valor de mercado estimado em cerca de 15 bilhões de dólares -o que o colocaria entre as 20 maiores companhias listadas na Bovespa, acima de nomes como Cemig e JBS.

Tomando como base uma oferta de cerca de 1,5 bilhão de dólares, segundo valores comentados pela mídia nas últimas semanas, e assumindo-se que dois terços disso equivaleriam à oferta primária, o banco poderia alavancar investimentos em cerca de 5 bilhões de dólares.

Isso é bem mais do que o que grupo desembolsou nos últimos anos para adquirir empresas como Banco Panamericano, BR Properties, WTorre, a empresa de estacionamentos Estapar, a BR Pharma, a Rede D'or, além de empresas dos setores de petróleo e de energia, que consumiram mais de 2,5 bilhões de dólares.

Ao mesmo tempo, o negócio deve marcar um importante teste para o mercado de capitais brasileiro, que há oito meses não sabe o que é uma IPO. O último, da Abril Educação, em julho de 2011, foi precificada abaixo do esperado pela companhia.

Neste ano, as duas companhias que pretendiam captar recursos com uma oferta inicial de ações, a CVC e a Brazil Travel, ambas do setor de turismo, desistiram dos planos devido às condições adversas do mercado. Para especialistas, no entanto, a história com o BTG deve ser bem diferente.

"Uma operação desse porte vai ser muito visível; seguramente vai ser muito bem recebida", disse Eleazar de Carvalho Filho, sócio da Virtus BR Partners.

De fato, as informações contidas no prospecto da oferta encaminhada à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) contam uma história bastante sedutora para investidores, ávidos por ativos razoavelmente seguros e com bom potencial de rentabilidade, o que parece escasso no atual cenário global.

Desde que Esteves assumiu o controle do grupo pela primeira vez, em 2002, o banco vem numa escalada fulminante. O executivo, 43, um matemático que começou no então Pactual aos 21 anos, vendeu o banco para o suíço UBS em 2006 por cerca de 3,1 bilhões de dólares e o recomprou três anos depois por 2,5 bilhões de dólares, para formar o que é hoje o BTG Pactual.

Em dados proforma, o grupo vem registrando uma rentabilidade sobre patrimônio de 41,5 por cento nos últimos cinco anos. Em 2011, o grupo teve um lucro líquido de 1,92 bilhão de reais, um crescimento de 70,5 por cento ante 2010. As receitas cresceram 32 por cento, para 3,2 bilhões de reais.

Tudo isso com um nível de eficiência atraente, mesmo para uma empresa do setor financeiro.

No ano passado, a receita média gerada por cada um dos 1.300 funcionários do BTG foi de 1,9 milhão de dólares, enquanto a média de gigantes como Goldman Sachs, Morgan Stanley e Credit Suisse foi de 620,5 mil dólares, segundo informou o próprio BTG no prospecto.

E, segundo o documento, parte do dinheiro obtidos com a oferta primária será usada para expandir sua principal especialidade: levantar recursos a baixo custo para montar consolidadoras em setores de alto crescimento.

"Após a oferta (de ações), acreditamos que nossos custos de financiamento continuarão a diminuir e que teremos uma maior variedade de opções de financiamento disponíveis", de acordo com trecho do prospecto.

"Acreditamos que essas fontes mais baratas e diversificadas de financiamento facilitarão nossos esforços para expandir seletivamente nossos produtos de crédito, incluindo derivativos, securitizações, créditos estruturados e financiamentos pré-IPO, de maneira rentável e prudente."

Essa estratégia deve se espalhar pela América Latina, desde que o grupo celebrou a compra do banco de investimentos chileno Celfin, no mês passado, por cerca de 600 milhões de dólares.

Outro objetivo da emissão de ações será reforçar o capital, que vem diminuindo de forma rápida dado o alto ritmo de expansão da companhia, embora ainda permaneça em níveis bastante confortáveis.

No final de 2011, o índice de Basileia do banco era de 17,7 por cento, bastante acima do piso regulamentar do Banco Central, de 11 por cento, mas abaixo dos 21,5 por cento do final de 2010.

"Um IPO vai ajudar a fortalecer os níveis de capital", disse o analista Francisco Kops, do Banco Safra.

Esteves e outros sete sócios principais do BTG vão manter papéis que lhes dão um poder decisório diferenciado no banco, as chamadas "golden shares", que asseguram aos acionistas o direito de lutar contra ofertas hostis de aquisição, além de garantir poder de veto em temas estratégicos.

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