Irã aposta no Brasil para efetivar influência na região

Para analistas, apesar da relação com Chávez e outros líderes da América Latina, vultosos investimentos anunciados pelo país ficaram na promessa

Roberto Simon, O Estadao de S.Paulo

22 de novembro de 2009 | 00h00

Desde a sua eleição, em 2005, o presidente Mahmoud Ahmadinejad alçou a América Latina à categoria de zona prioritária de sua política externa - e os regimes ditos "bolivarianos" o receberam de braços abertos. Além de visitar três vezes a Venezuela, Ahmadinejad já passou por Equador, Nicarágua e Bolívia, e recebeu em Teerã os presidentes desses quatro países. Contudo, a chegada do iraniano amanhã ao Brasil, grande potência emergente da região, representa um salto inédito da iniciativa de Teerã para a América Latina, afirmam especialistas.

Até agora, os laços diplomáticos se estreitaram, sobretudo, no plano retórico. A aliança improvável entre bolivarianos, que reivindicam o "socialismo do século 21", e o regime persa, uma teocracia islâmica, foi construída em torno do discurso antiamericano, o qual encontrou ambiente favorável durante o governo George W. Bush.

Ali Pedram, especialista em Irã da Universidade de Durham, na Grã-Bretanha, afirma que é preciso distinguir a promoção de interesses estratégicos de Teerã da "atitude pessoal de Ahmadinejad, que busca uma relação especial com regimes latino-americanos como o de Chávez". O primeiro aspecto seria uma reação ao isolamento internacional e às sanções impostas pela Organização das Nações Unidas (ONU). "Teerã tem uma política externa pragmática", disse Pedram ao Estado. Para ele, a ofensiva pessoal de Ahmadinejad, por outro lado, "não vai além do simbolismo político, com ganhos econômicos de curto prazo".

Os ambiciosos investimentos na América Latina anunciados pelo presidente iraniano continuam sendo apenas promessas. "Tem havido certo exagero ao se falar da influência do Irã na região", constata o especialista iraniano-britânico.

Ahmadinejad ofereceu ao venezuelano Hugo Chávez US$ 4 bilhões em projetos petrolíferos na Bacia do Orinoco. Ao boliviano Evo Morales, prometeu US$ 1,1 bilhão também no setor energético e uma rede de TV estatal do Irã, que deverá transmitir, da Bolívia, notícias em espanhol. O Equador receberia auxílio na construção da represa de Coca-Codo Sinclair e a Nicarágua, cerca de US$ 1 bilhão em sua agricultura, além de um porto de águas profundas. Nenhuma dessas promessas, porém, foi cumprida.

Na 1ª Conferência Internacional sobre América Latina, realizada pelo governo iraniano, em 2007, o então chanceler de Teerã, Mehdi Mostafavi, anunciou a abertura de embaixadas em cinco países - Chile, Colômbia, Equador, Nicarágua e Uruguai.

Do lado latino-americano, a aproximação também se limitou ao plano simbólico. Chávez concedeu a Ahmadinejad status de "observador" na Aliança Bolivariana para as Américas (Alba) e autorizou a Air Iran a operar um voo Caracas-Damasco-Teerã. Evo transferiu a única embaixada boliviana no Oriente Médio do Cairo para Teerã e convidou médicos iranianos para trabalhar no país. Ao receber no Equador o principal negociador do programa nuclear iraniano, Saeed Jalili, o presidente Rafael Correa garantiu que "os laços Quito-Teerã vão muito além das relações comerciais".

O presidente paraguaio, o ex-bispo Fernando Lugo - chamado por Ahmadinejad de "um homem de Deus contra o Grande Satã", referindo-se aos EUA - derrubou a obrigatoriedade de vistos a iranianos que visitarem o Paraguai. Seu chanceler, Alejandro Franco, que já comandou a embaixada do país em Beirute, é acusado pela oposição de ser simpatizante do grupo xiita libanês Hezbollah.

FLERTE BRASILEIRO

Embora o governo Luiz Inácio Lula da Silva tenha manifestado intenção de se aproximar do Irã, o Brasil mantinha inicialmente certa cautela. Em 2005, por exemplo, o Ministério de Ciências e Tecnologia recusou-se a participar de um projeto nuclear na Venezuela ao saber que o Irã também estaria envolvido na iniciativa. Recentemente, porém, o Itamaraty começou uma política ativa de aproximação com os aiatolás.

Há um ano, o chanceler brasileiro, Celso Amorim, visitou Teerã acompanhado de 30 empresários. Diante dos graves indícios de fraude na vitória eleitoral de Ahmadinejad, em junho, Lula qualificou os protestos de milhões de opositores iranianos de "choro de perdedor, uma coisa entre flamenguistas e vascaínos". Pouco antes, Ahmadinejad cancelara a visita que faria a Brasília. Em setembro, durante a sessão de abertura da Assembleia-Geral da ONU, Lula se reuniu com Ahmadinejad a portas fechadas.

Ao desembarcar em Brasília, Ahmadinejad consolidará a aproximação com Lula e o Brasil "dará legitimidade às ambições do Irã na região", diz Eli Karmon, estudioso da ação iraniana na América Latina, do Instituto de Contra-Terrorismo de Israel. "O apoio de Lula é muito mais significativo que o de Chávez. É um grande passo."

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