Mike Blake/Reuters
Mike Blake/Reuters

Isto é ‘o’ filme

Acusado de oferecer um ‘retrato sujo’ da sociedade iraniana, 'A Separação' é mais uma obra de resistência estoica à opressão

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

03 Março 2012 | 16h00

Asghar Farhadi mediu muito bem as palavras. Empunhando o Oscar que A Separação acabara de conquistar, falou da felicidade que o povo iraniano estaria sentindo ao ver seu país ganhar destaque internacional por obra exclusiva de sua “gloriosa cultura”. E ofereceu a estatueta ao povo iraniano, enaltecendo-lhe o respeito por “todas as culturas e civilizações” e o desprezo a “hostilidades e ressentimentos”.

A mídia internacional aplaudiu a cuidadosa distinção entre povo, cultura e rusgas políticas, feita pelo cineasta. A imprensa chapa-branca iraniana, não. A agência de notícias Fars, tristemente famosa por censurar Farhadi de apertar a mão de mulheres em festivais de cinema no exterior, desmoralizou-se ainda mais ao acrescentar ao agradecimento do diretor uma apócrifa cutucada nas pressões externas ao programa nuclear iraniano. Nem nos bastidores da festa Farhadi tocou nesse assunto.

Coroando a fraude, a agência informou que Farhadi subira ao palco das premiações acompanhado da filha. O cineasta, como milhões de olhos viram e o YouTube pode confirmar, recebeu seu Oscar sozinho, das mãos de Sandra Bullock.

Os iranianos que assistiram clandestinamente à entrega dos Oscars, via satélite, notaram o engodo e o ridicularizaram na internet, divulgando na íntegra o agradecimento de Farhadi. Mais que depressa, a Fars, tão propícia a um trocadilho quanto a americana Fox News, vulgo Faux News, removeu a patranha na surdina.

A Irib News foi mais fria na divulgação da vitória, mas não perdeu a oportunidade de cutucar Israel, que também concorria ao Oscar de “melhor filme estrangeiro”, com Footnote. Outra agência submissa ao governo Ahmadinejad, a Raja News, insinuou que a Academia de Hollywood só distinguira o cinema iraniano porque A Separação oferece uma visão desairosa da vida no Irã. Pelo visto, trata-se de um complô internacional, pois o filme já coletara meia centena de prêmios mundo afora antes de abafar em Hollywood.

O ministro da Cultura e Orientação islâmica, Javad Shamaghdari, tentou abafar o impacto popular da premiação da maneira mais desastrada possível, comparando a festa da Academia a “um festival de cinema sem importância de uma cidade do interior”. Esopo e La Fontaine explicam. A festa foi e tem sido uma chatura, um picadeiro de narcisistas; suas premiações são quase sempre previsíveis e frequentemente injustas e até ridículas (por que Melancolia, que põe no bolso todos os candidatos deste ano, nem entre os finalistas ficou?), mas algum imã precisa trazer o ministro iraniano de volta à realidade.

O escritor e crítico de cinema Masoud Ferasati foi mais longe que o ministro: não apenas acusou A Separação de oferecer “um retrato sujo” da sociedade iraniana “para gáudio das plateias ocidentais”, como desqualificou as premiações conferidas aos filmes iranianos, nas últimas décadas, todas, a seu ver, mal-intencionadas, motivadas por razões políticas.

Pela quantidade de filmes proibidos e cineastas presos no país, o cinema é a vanguarda da oposição ao governo no Irã. Jafar Panahi, o diretor de O Balão Branco e Fora do Jogo, preso em 2010 e solto depois de uma greve de fome, ainda espera sua sentença, mas pode ser preso novamente a qualquer momento, segundo a Anistia Internacional. Como o marido de A Separação, optou por não deixar o país, ao contrário de Farhadi que, a exemplo de Simin, a esposa do filme, preferiu se mandar para o exterior. Bahman Ghodabi, o diretor de Antes da Lua Cheia, foi outro que não aguentou a barra e se foi.

O mais prestigiado cineasta iraniano, Abbas Kiarostami, que defendeu publicamente a libertação de Panahi e seu colega Mahmoud Rasoulof (condenado a seis anos por “subversão”), também escolheu ficar. Indo e vindo, enquanto der. Seu mais novo filme, The End, foi rodado no Japão, com capital japonês e francês. Nunca filmara fora do Irã. The End pode ter sido, na verdade, um começo.

As punições impostas a ativistas feministas, como as atrizes Marzieh Vafamehr (condenada a um ano de cadeia e 90 chibatadas, depois reduzidas) e Pegah Ahangarani, a documentarista Mahnaz Mohammadi e a jornalista fotográfica Maryam Najd, tiveram forte impacto dentro e fora do Irã, mas Panahi ainda é o mais destacado bode expiatório do regime autoritário dos aiatolás. Ele apoiou Hosein Musavi contra Ahmadinejad, nas contestadas eleições presidenciais de 2009, solidarizou-se com os verdes da oposição e desfilou na abertura do Festival de Montreal com uma foto de Neda Agha-Soltan, aquela jovem morta pelas forças de segurança durante uma passeata de protesto pelas ruas de Teerã, em junho de 2009.

Proibido de filmar e confinado em seu apartamento, Panahi gravou em vídeo, no ano passado, um pequeno diário do seu atual (e nada invejável) cotidiano. Com um título inspirado em Magritte, Isto Não é um Filme, é uma declaração de resistência estoica e criativa diante da opressão. O não-filme chegou sorrateiramente ao Festival de Cannes e a outras mostras internacionais, inclusive a de São Paulo. Quarta-feira estreou em Manhattan, habilitando-se ao Oscar de 2013. Que Alá o proteja.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.