Paolo Bona/ Reuters
Paolo Bona/ Reuters

Italiano tem poder e apoio de Bento XVI

Líder nato e com sólida base teológica, Scola é apontado como favorito, mas enfrenta resistência de parte do clero italiano

JAMIL CHADE, ENVIADO ESPECIAL/VATICANO, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2013 | 02h04

Ele não é apenas um cardeal. Mas uma personalidade na vida política e social da Itália e, na prática, controla um verdadeiro Estado dentro de um Estado. Trata-se do italiano Angelo Scola, considerado o nome mais forte para suceder Bento XVI e escolhido pelo próprio alemão para ocupar seu posto. Politicamente conectado, líder nato e com uma base teológica sólida, Scola sabe que é um dos nomes que surgirão na primeira rodada de votação do conclave. Seu maior problema é a constatação de que ele há meses manobra para ganhar apoio para ser papa.

Scola nasceu em um meio pobre, o que ele não hesita em usar como referência a seu favor. Seu pai era caminhoneiro, e ele teve uma infância difícil numa Itália destruída pela 2.ª Guerra. Sua entrada ao sacerdócio ocorreu ao mesmo tempo que outras figuras de grande destaque na Igreja Católica da Europa davam os primeiros passos, entre eles um certo Joseph Ratzinger. Juntos, os dois fundaram a revista católica Communio, que se transformou em uma referência intelectual da Igreja. O movimento havia sido liderado pelo teólogo suíço Hans Urs von Balthasar, num dos períodos de maior efervescência da Igreja, durante o Concílio Vaticano 2.º, entre 1962 e 1965.

Com 71 anos, confortável com a imprensa e ativo nos meios políticos italianos, Scola se lançou nos últimos anos a reforçar um diálogo com o Islã. Criou em 2004 o think-tank Oasis, que também se transformou num polo do diálogo entre muçulmanos moderados e católicos.

Foi ainda o arcebispo de Veneza, um dos postos de maior prestígio dentro da Igreja. Em 2011, seu amigo pessoal Ratzinger o nomeou arcebispo de Milão - a diocese mais rica e importante da Itália, com mais de 3 mil padres, de onde saíram dois papas em apenas cem anos.

Nos últimos anos, Scola tem ensinado moral antropológica no Instituto João Paulo II, o que deixa claro que sua visão da Igreja, da sociedade e do mundo é equivalente ao do grupo que está no poder na Santa Sé há 30 anos. "Scola é um Ratzinger com mais experiência pastoral e, como muitos vêm alertando dentro da Igreja, o Vaticano quer alguém com esse perfil mais próximo dos padres e das pessoas", apontou John Allen, vaticanista em Roma. Não por acaso, Bento XVI deixou claro que, se pudesse votar, escolheria Scola. "Você deve iluminar aos demais", disse o agora papa emérito em um de seus últimos encontros com Scola.

Autoproteção. Parte de sua capacidade de influência vem de suas relações privilegiadas com o movimento Comunhão e Libertação - criado em 1954 e presente em mais de 70 países-, que passou a ser uma das fontes informais mais relevantes entre o mundo político italiano e a Igreja. Há um movimento de solidariedade e autoproteção entre os membros do grupo toda vez que um deles enfrenta algum problema, como denúncias de corrupção.

O poder de Scola é tão grande quanto as polêmicas nas quais ele está envolvido. Considerado um conservador, o italiano tem opositores dentro de seu próprio país e do Vaticano. Segundo pessoas da Santa Sé consultadas pelo Estado, muitos cardeais italianos estariam resistindo a apoiá-lo, indicando que a escolha representaria a continuidade, e não a renovação. "Ele é uma pessoa moderna, mas isso não quer dizer que seja progressista", alertou o vaticanista Marco Politi, um dos principais historiadores da Santa Sé. "Existe pelo menos um forte grupo de cardeais italianos que não quer Scola, pois acredita que a imagem da Igreja não seria beneficiada por alguém de tanto poder entre os conservadores", emendou um religioso em Roma, pedindo anonimato.

Se Scola faz parte de todas as listas de papáveis, os escândalos que citam seu nome não são poucos. Entre os papéis que teriam sido vazados do Vaticano pelo mordomo de Bento XVI, um deles apontaria um complô para "acelerar" a substituição do papa e uma manobra para que o próximo pontífice seja um italiano. Um bilhete escrito a mão em alemão e sem assinatura daria o tom do "complô". Repassado a Bento XVI, seria supostamente um resumo de um comentário do cardeal da Sicília, Paolo Romeo, que, durante uma visita à China, teria insinuado que Bento XVI estaria morto em um ano e seria substituído por um cardeal italiano: Scola.

A especulação em torno de um suposto complô perdeu força depois que o papa reforçou seu apoio ao italiano. Ainda assim, o vaticanista John Allen estima que o caso é o equivalente a um "beijo da morte" para as pretensões de Scola no conclave.

A aparição de diversos nomes do Comunhão e Libertação nas investigações de corrupção na Itália também atrapalha os planos do cardeal. Scola, num esforço de limpar seu nome, tem se distanciado do grupo. Mas, para observadores, sua identidade está atrelada ao movimento. Cardeais italianos estariam hesitantes em dar seu voto a alguém que, uma vez papa, estaria empenhado em limpar o nome do grupo. Já seus aliados insistem que Scola tem o perfil e a influência necessários para enfrentar os desafios da Igreja.

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