'Italianos querem o trono e os demais, a globalização'

Jornalista especializado na cobertura do Vaticano afirma que Igreja procura um papa diferente: um nome novo e forte

Entrevista com

BIA REIS, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2013 | 02h05

O cardeal Joseph Ratzinger nunca teve a pretensão de ocupar o mais alto cargo na Igreja Católica. Discreto, gostava da vida que levava em seu escritório, escrevendo em silêncio. No entanto, Ratzinger se viu obrigado a assumir o Trono de Pedro no conclave que escolheu o sucessor de João Paulo II, em 2005. O relato é do jornalista e escritor Andreas Englisch, um dos mais conhecidos correspondentes alemães no Vaticano, autor do recém-lançado O Homem Que Não Queria Ser Papa.

Englisch afirma que "foi uma experiência muito ruim para a Igreja lidar com um papa que não queria se tornar o cabeça". E isso não vai acontecer de novo, diz o jornalista. "Os cardeais agora vão eleger alguém que queira realmente ser papa."

Para ele, haverá uma luta entre os italianos, que querem recuperar o posto, e o resto do mundo, que deseja que a globalização da Igreja prossiga. Autor de João Paulo II, O Segredo de Karol Wojtyla e O Papa dos Milagres, Englisch aposta em três nomes - o dos arcebispos de Milão, Angelo Scola, e de São Paulo, Odilo Scherer, e o do cardeal canadense Marc Ouellet. A seguir trechos da entrevista:

O sr. cita no livro três motivos concretos que seriam obstáculos para o então cardeal Joseph Ratzinger não ser escolhido papa: a dificuldade do teólogo em lidar com o povo, sua personalidade discreta e o fato de conhecer pouco a política da Igreja. Por que então Ratzinger foi eleito?

Simplesmente porque a Igreja Católica naquele momento não queria um novo pontífice - queria, sim, que o papa morto voltasse. O que quero dizer com isso é que o pontificado de João Paulo II foi tão bem-sucedido - ele ajudou a destruir pacificamente o império soviético - que a Igreja ficou realmente chocada com a sua morte. Então os cardeais decidiram escolher alguém que fosse o mais próximo possível do papa anterior, e esse era Ratzinger. Eles trabalharam juntos desde 1981, e João Paulo II falava que o cardeal era seu "amigo de fato".

O desejo (ou não) de se tornar papa não é levado em conta pelos cardeais no conclave?

Esse é um ponto muito importante deste conclave. Joseph Ratzinger disse várias vezes que absolutamente não queria se tornar papa. Ele me disse várias vezes: 'Eu nunca poderia fazer o que um papa tem de fazer'. Foi uma experiência muito ruim para a Igreja lidar com um papa que não queria se tornar o cabeça. Isso não vai acontecer de novo. Com certeza os cardeais agora vão eleger alguém que queria realmente ser o próximo papa.

O senhor chega a classificar a escolha por Ratzinger de desumana e compara a eleição a uma catástrofe, uma execução, como se ele não tivesse, em nenhum momento, condições para mudar o que se desenhava: a sua eleição. Durante o conclave, enquanto os diferentes grupos se articulam, o cardeal não tem força para evitar sua própria eleição, caso realmente não queira?

No último conclave, Ratzinger não teve chance por causa de seu discurso feito no funeral de João Paulo II. Na ocasião, Ratzinger afirmou que seu antecessor havia ouvido o chamado do Senhor e que era isso que os padres deviam fazer. Então, quando ele ouviu o chamado de que seria o próximo papa, não pode dizer não - os eleitos são perguntados se aceitam a escolha. Se ele tivesse respondido não, teria contrariado o que havia dito.

Bento XVI se sentiu à vontade em sua função em algum momento em seu pontificado?

Absolutamente não. Ele foi, na minha opinião, o papa mais fraco da história. Deixou o secretário de Estado (Tarcisio Bertone) fazer o que queria fazer. Nos discursos de renúncia, ele relatou como foi difícil viver sem privacidade. Bento XVI queria escrever seus livros sobre Jesus. Ele não estava interessado em comandar a Igreja.

Entre os cardeais citados nas últimas semanas com tendo chances na eleição que definirá o sucessor de Bento XVI, em quem o senhor apostaria?

Se o escolhido for algum italiano, deverá ser o cardeal Angelo Scola. Se for uma pessoa do resto do mundo será Odilo Scherer ou Marc Ouellet. Como papa, Scherer poderia tentar resolver o maior problema que a Igreja Católica enfrenta atualmente: a enorme perda de fiéis. No Brasil o número de católicos caiu de 160 milhões, em 1991, para 115 milhões em 2010. Já Ouellet é muito experiente no governo da Igreja e forte o suficiente para colocar os italianos corruptos para fora.

O que mudou entre a eleição de Bento XVI e esta que começará a ser realizada na terça-feira?

O que mudou é que, desta vez, haverá uma luta. Os cardeais italianos querem o trono do papa de volta, eles querem voltar a ter o controle de toda a Igreja. E o resto do mundo lutará para que a globalização da Igreja prossiga. O conclave que elegeu Ratzinger queria um homem que continuasse o trabalho do antecessor. Agora, eles procuram alguém que seja totalmente diferente de seu antecessor. Querem um nome novo e forte.

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