Ivan Lessa: A batalha do metrô

Ou como conseguir sentar na primeira vaga que der sopa.

Ivan Lessa, BBC

12 Outubro 2011 | 06h06

Felizmente estou por fora das escaramuças do metrô. Foi-se o tempo da luta para sentar.

Primeiro, porque eu não ando mais de metrô. Andar comigo é muito mais em cima. Aqui pelo segundo andar da casa onde tenho meu flat.

Quando eu tinha de pegar o bruto, até há alguns meses, meus cabelos brancos em conjunção com minha rugas (deixei-as no lugar não fazendo feito o recém-casado McCartney) mais uma pequena arrastada de uma perna, fajutada com meus dotes histriônicos, sempre deixaram alguém sentado se sentindo culpado e me oferecendo o lugar.

De vez em quando, para mostrar bravura diante da adversidade, eu recusava. Com polidez, mas recusava.

Passemos agora às pessoas normais. Todas elas com menos da metade, ou mais que isso até, de minha idade e que dão duro nas horas de trabalho enfrentando os rushes matutinos ou vespertinos.

Coitados. Daqueles que após a fúria de conseguir, às cotoveladas e empurrões, entrar no vagão, dão uma olhadela geral e só vêem outros camaradas em pé olhando firme para eles. Os sentados luxuriam-se em suas posições privilegiadas e nem levantam os olhos do jornal ou do livro.

Aí começa, para os commuters (comutadores, digamos assim), a grande batalha de como conseguir sentar na primeira vaga que der sopa.

Li um artigo interessante a respeito. Aqui em casa e refestelado no sofá.

O cidadão Brendan Nelson publicou um livrinho intitulado Prepare for War (Prepare-se para a Guerra), que se encontra inclusive online, completo e recheado de gráficos e ilustrações, onde dá as coordenadas, segundo seus estudos, para o que ele chama, com graça e ironia, "o teatro do conflito".

Baseou-se o ilustre no clássico chinês A Arte da Guerra, do general, estrategista e filósofo chinês Sun Tzu. Brendan Nelson divide os participantes em Aspirantes, aqueles que querem sentar, Civis, os que não se importam em viajarem de pé, e Ocupantes, aqueles já sentados.

Segundo o guia, o principal é o que ele chama de Posicionamento. A postos porém agindo de forma casual. E cita Sun Tzu para reforçar sua estratégia: "Toda guerra se baseia em trapaça".

É preciso também, segundo o autor atual, conhecer o inimigo e saber como enganá-lo.

Agora aposentado, e tendo se despedido de seus dias de embate diário no metrô (seus achados são válidos também para trens), Brendan Nelson confessa que só hoje pode compartilhar com o público viajante da experiência adquirida. É franco também: "é preciso ser uma pessoa ligeiramente má para seguir meus planos militares".

Ele dá um batalhão de exemplos. É preciso, quando de pé, ficar atento o tempo todo.

O fato de que alguém fechou o livro ou o laptop não quer dizer que vá saltar logo. Maldoso, nosso autor acredita que às vezes o Ocupante está apenas fazendo guerra psicológica com a mente do Aspirante.

Quase sempre quem vai se levantar e saltar na próxima estação é o outro Ocupante, aquele ao lado, que, por sua vez, também age assim movido por baixos instintos.

Leio meio desatento a tudo isso, espreguiço-me, deixo o jornal cair no chão e, como se dizia, puxo um ronco de uma meia-hora. Direitos adquiridos de quem já fez essas viagens.

Alguém que pode não ter ganhado medalha alguma mas, em certos dias frios e nublados, sente as neuroses das guerras travadas. Ou serão saudades? BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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